Marcelo Ariel – Num tempo em que a política contamina a maioria das conversas, ou seja, a discussão, talvez derivada de certa melancolia geral que associo com a truculência do perverso ethos econômico-empresarial-judicializante-dicotômico que rege a vida no Brasil nesta confluência entre os séculos XIX, XX e XXI, me pergunto por que tão poucas pessoas, inclusive os poetas falam raramente de modo profundo sobre poesia. O que me intriga é o fato de os poemas dialogarem entre si mais do que os poetas. O que você acha disso?

Beatriz Bajo – É…é com grande pesar que levamos esta circunstância nos ombros esquálidos e dados às cruzes, digladiando entre vilões e vítimas de um processo em que parecemos ser expectadores; mas, sobretudo por isso mesmo, somos mais que agentes. Tudo o que teoriza é torpe e feio quando nos afasta do outro efetivamente.

O ego, tão entediante e exacerbado em nós, cega-nos justamente por sermos reflexo deste escândalo da busca pela imaculabilidade e pelo poder. E assim, seguimos dando às costas ao humano de nós, subjugando-o às seitas, às fogueiras ideológicas.

Falávamos sobre o fato da raridade dos ouvintes, dos leitores…ninguém quer ser plateia…todos em busca de serem ouvidos e lidos. No entanto, politicamente, não há um que acredite merecer o Brasil sendo assim, como somos…cordeiros imolados à procura de um messias.

É preciso aceitar o fracasso e fabricar outro Brasil às nossas custas, através de nossas mãos, e, como Drummond já aconselhava, “de mãos dadas”, porque um país é feito de pó de ser, de povo. Cada um por si não cria um país digno para todos. E a poesia, e os poetas — servidores públicos, como você acertadamente disse — deveriam estar abraçados pregando a mesma oração.

Nesta conjuntura esdrúxula e grotesca em que estamos inseridos — deve haver um motivo —, há um caminho de convergência? Você acredita em uma maneira suave, sobretudo, sadia de sairmos dessa lama ideológica? Como a poesia e os poetas podem atuar para que o Brasil se cure das escaras sistêmicas deste nosso contexto solitário e doente de paixões?

Marcelo Ariel – Você se refere aos brasis, uma visão poética jamais nos levaria a essa noção de “uma única nação” quando sabemos da imensa diversidade da nossa flora se pensarmos nas almas como uma floresta.

A atual e lamentável situação de uma guerra cultural deriva justamente das monoculturas do pensamento. No odioso, pantanoso e dispensável mundo literário, para o qual internamente sempre envio um nítido foda-se, essa monocultura se dá de forma igualmente violenta. Mas, falemos de outro assunto.

Seus poemas e os meus, em seus melhores momentos, são como cartas, tentam a difícil evocação do outro. É óbvio, pra mim, que é algo raro e devemos a isso boa parte de nosso saudável e límpido isolamento. A regra são poetas viciados no próprio ego condenarem o poema a ser uma emanação de suas neuroses.

Que estratagema podemos utilizar para não sermos capturados pelo mundo literário?

Beatriz Bajo – A minha regra é sempre o amor, porque é só por ele que se quer o bem verdadeiro. Sim, sou piegas. Mas não encontro outra forma de a vida ser boa pra mim se não for boa pra quem eu amo, se eu amo. Não tenho interesse, apesar da solidão, de ser só e isso pra mim são coisas completamente distintas. Se eu for, te levo…se eu flor, tu pólen… ser inteira para mim é ter sorte. Estar além é o que me entusiasma, etimologicamente falando…o que almejo é transbordar mesmo. E desta borda chegar ao cerne.

Sem dúvida, não sairemos incólumes deste período de enganos e desenganos. E como seguir, após? Qual panorama de nosso futuro?

Marcelo ArielFazer, ligado a essa palavra imantada de entusiasmos chamada começar. Me parece que estamos condenados a uma miríade de começos ininterruptos. O fazer em si mesmo é a resposta e por que não o fazer sem esperar nenhum lucro ou vantagem. A dificuldade é vista como algo estimulante e não angustiante. Nossa vida de poetas no Brasil não é diferente em seus obstáculos da vida dos poetas em qualquer tempo ou país se realmente são como você mencionou, seguidores do poema. Ainda vejo a destruição de tudo o que é fixo e opressor como uma das metas do nosso ofício, o que não significa que somos melhores ou distantes do que os que não praticam a escrita poética em suas vidas. Somos como garis, jardineiros, carpinteiros do espírito. Me lembro sempre que o horror é um cenário mais exterior do que interior. A relação entre os poetas e o tempo em que vivem é de uma imanência que apenas em sua superfície parece ser terrível. É importante conciliarmos a percepção do sobrenatural e do extraordinário na natureza das pequenas coisas, insignificantes segundo o senso comum, com o simples atravessamento de um cotidiano cruel e também maravilhoso em suas possibilidades de contemplação silenciosa do mistério de tantos rostos mergulhados no sofrimento. É como se buscássemos a capacidade de não esquecermos esses rostos que passam rápido por nós nas ruas. Eis uma das tarefas que o impossível nos pede. Este me parece ser o grande panorama do nosso presente que cobre uma ideia do infinito. Seguimos nesta direção.

Abaixo, uma seleção de poemas escritos a quatro mãos, publicados entre 2009 e 2010, nos livros “a face do fogo”, de Beatriz Bajo (Annablume/ Demônio Negro) e “Conversas com Emily Dickinson”, de Marcelo Ariel (Selo Orpheu / Multifoco), ambos esgotados.

Carta a Barthes

Sim a verdade é impossível com a linguagem,

ela não é como o ar

e seus anjos

que sobrevivem

em nossa paisagem cerebral

obscuros e transparentes

como O espírito :

A linguagem é um outro

tipo de demônio

e a verdade,

este anjo

do silêncio,

não o inacessível

mas algo tão belo quanto…
quanto o veludo-pétala de um bebê

na brilhanteza dos olhos que sabem sem razão
e conhecem a cor da simplicidade
que mora na mão trêmula do tempo
que nos move e muda e ultrapassa
nova carapaça que a língua não
cansa de tentar decifrar
como a luz de uma lanterna
na neblina
iluminando
um carro destroçado,
assim morre
a Vida das palavras
na impotência
do dizível,
na fragmentação do abraço
que seria a inteireza
na violação dos entendimentos sem códigos
lambidos pelos versos tão obscenos
que percorrem as ocultações cintilantes
entre corpos apalavrados
de reticências róseas
tão delicadas

que nãos as percebemos

enquanto nos movemos

como fotografias

por dentro

do imantado poema
que se desmancha em negativo
por fora do peito latejante da palavra
que corta o ventre adormecido
da outra língua

que falávamos

antes de nascer.

 

DO IRREMEDIÁVEL

carregarmos mundos por dentro
torna difícil
o triunfo
do amor
sobre esta vida
e seu fatídico invento:
dois corpos
por tudo
falsamente

separados.
Quer a alma que
sejam como um
por obra e graça
entre o desmantelo de uma flor
e a pedra que estilhaça
aparta-se o segredo de umbigo
dentro
da fome de um mendigo
alucinado em riso insano:

Alargando

como um amante

insaciado

o tempo

ao viver

um ano

em um dia,

sem conseguir

vencê-lo

como o vence

a pedra

ou triunfar sobre

ele em esquecimento

como faz

o cão.

Ao nascer

grave crime contra

a vida

do não-ser

cometemos?
Cruel SIM ao
irremediável encontro
do não-tempo
ao ser de todos
os eus abraçados
como o nó colorido
do beijo que descuida,

porque jamais toca

na paisagem,

em nós se esconde uma Alma

apenas sussurrando

seu endereço

para um corpo

que nela não se move

e assim permanece

incompleto

como árvore

que cresce só

até o tronco

e racha e sangra

na brancura do que escorre

molécu{la}crimando

quase libélula

lacrada

despetalando

o intangível

invento

do momento no  tempo:

e assim se cumpre

um irremediável

e irreversível

assassinato,

que em profundo

sono

jamais percebemos.

 

Antes

Com  o coração hermeticamente aberto como um açougue metafísico durante os sete dias de um domingo interno ou imaginário, como qualquer outra ideia que tenta sem sucesso enlaçar o tempo que já havia antes do ser, cancelaremos todos os sentidos antes do verdadeiro fim e abraçaremos as asas da singela brisa acordada que nos excitará com o frescor dos instantezinhos que saltitam pela íris e coçam-nos de alegria, como passarinhos entre os dedos vibrarão as auras de assanhamentos corados pelo solar momento da separação entre a visão do mundo como um quarto e  a recém-chegada  e logo esquecida sensação incompleta de sair de um sonho com o coração hermeticamente aberto como uma aura aterrada dento do sétimo dia do talvez, estaremos amalgamados no ventre de todos os versos suspirados e não ditos antes da boca que engolirá os pseudo-beijos do real como a chuva engole o vento e dissipa arrepios no entendimento dessa paisagem incendiada por nossos olhos.

Escrito por Beatriz Bajo

BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros "são sobre nossas línguas a carne das palavras" (Ed. Patuá, 2017), "domingos em nós" (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, ": a palavra é" (PR) e "a face do fogo" (SP), os dois de 2010. Traduziu os livros "Respiración del laberinto", do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora (2009) e uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem, ainda não publicada. Esteve com um poema na mostra POESIA AGORA, da Caixa Cultural Rio de Janeiro, de junho a agosto de 2017. Participou das antologias "29 de abril: o verso da violência", ed. Patuá: 2015; "101 poetas paranaenses". V.2 (1959-1993), organizada por Ademir Demarchi (Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014); "En la otra orilla del silencio" (Na outra margem do silêncio) organizada por José Geraldo Neres, lançada e traduzida no México em 2012; "Diálogos com a Literatura Brasileira – volume III", organizado por Marco Vasques (Movimento, Porto Alegre/RS; Letradágua, Joinville/SC, 2010); "Moradas de Orfeu", organizada também por Marco Vasques (Letras Contemporâneas, Florianópolis/SC, 2011; "Realengo: poetas pedem paz", Revista Germina Literatura & Arte, junho 2011. Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/) e o Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações, (http://esquinaliteraria.blogspot.com/). Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 11 em Londrina-PR.