Luca

(O sonho é a véspera da ilusão, já disse alguém. Sonhei sair do Vidigal, sonhei cursar engenharia, sonhei viajar para a Argentina, sonhei tirar a minha mãe de casa. Comecei a trabalhar aqui, comecei, mas tranquei o curso de engenharia na Estácio, perdi a bolsa do governo, voltei com financiamento do banco, fui à Mangaratiba nas férias passadas, ainda moro no Vidigal, mas não mais com meus pais. Para agora tudo se acabar assim. Que grande bosta! Eu não quis essa cidade, nasci nela à revelia. Eu não quis essa pobreza, esse ter que trabalhar. Quantos minutos podem se passar entre a ameaça e o clique do gatilho? Ninguém sabe, porque ninguém ouve o clique do gatilho, tamanha a zoada do disparo, mas o clique do gatilho é o que mata. Dê no que dê essa merda, Dimas não sairá vivo. Foi o clique do gatilho que ele não escutou que o matou, há tantos anos. Foi o clique do fuzil aerrequinze, foi sim. Mas e o pai de Gérson? Qual foi o clique do gatilho que matou Gérson há muitos anos atrás? Ninguém sabe, nem quer saber. Vai ver não houve clique de disparo nenhum. Vai ver Gérson é só ruindade mesmo, apurada na ganância e na raiva do mundo. Ninguém quer saber, foda-se. O danado, nessas horas, é o se. E se eu tivesse topado sair com Dimas? E se eu tivesse conhecido Gérson e por acaso a gente se casasse? E se o meu pai fosse morto com um clique de gatilho? E se minha mãe se amigasse com algum figurão desconhecido? E se esse figurão tivesse apadrinhado Dimas? E se tudo isso tivesse acontecido? Seria algo diferente essa história toda? E se eu tivesse aceitado as cantadas de seu Candinho, dono da padaria? E se ele tivesse descasado para se amigar comigo? E se eu não tivesse trancado o semestre em que arranjei esse emprego e já estivesse formada engenheira? E se eu não tivesse emprego, eu iria trabalhar aqui mesmo com um diploma? E se não houvesse bolsas e eu nem conseguisse passar em vestibular algum, nem pagar mensalidade nenhuma? E se eu tivesse pulado da ponte naquela noite? E se eu tivesse revidado e tivesse matado meu pai duma facada? E se a polícia tivesse já invadido essa merda e matado todo mundo? E se aquele advogado e aquele escritor não estivessem aqui? Que grande bosta é sonhar, porque a gente não tem chance nenhuma na boca do mundo. A gente vai sendo mastigado de toda forma, sem apelo, sem conversa. Tudo o que eu queria era não ter sonhado nunca, ou nem precisar sonhar. E se eu tivesse nascido rica, e se eu tivesse nascido branca? Eu não viria num café desses nem que me pagassem, eu só iria em café no shopping, que lá não rola assalto de jeito nenhum. De que adianta ter dinheiro e ser tão burro? Povo besta! Esse escritor mesmo, que diabo veio buscar nessa terra de ninguém que é o Rio? É doido, é? Um dia me disse que não suportava Paris. E se eu não suportasse Paris? Antes era preciso conhecer Paris, saber pronunciar Champs-Élysées. A gente suporta tudo o que não conhece. Agora está aqui, como a gente, sequestrado. Como a gente não, que até na merda há hierarquia. Há o estar dentro e o estar em cima da merda. E se eu estivesse em cima da merda? Sei lá. Dimas sabe, Gérson sabe, até esse nanico que está sob a mira do soldado sabe: há vidas que não valem nada. A deles não vale nada. Daí tiram que quanto mais parecido com eles, menos a vida vale. A minha não vale nada, que sou da mesma catinga deles. A do escritor vale muito, é gringo, escritor, tem dinheiro. Se morrer, sai em tudo que é jornal, até na França. Aliás, por causa dele há até cobertura internacional disso aqui, tenho certeza. Ele está em cima da merda, vai sair. Ninguém vai atirar nele, muito menos naquele advogado que vem sempre aqui. Terno caro protege mais que colete à prova de balas, nem bala perdida acerta, bala da polícia corre léguas. É raro morrer um, e quando morre tem até passeata em Ipanema, todo mundo branco de branco e sobrenome. Sobrenome é como grife. Todo mundo sabe quando é falsificado, se vê na cara. Até tem Richthofen presa, mas todo mundo sabe quem é Richthofen e quem é da Silva. Está na cara. Dimas é da Silva, e daqui não desce pra Bangu, vai direto pro inferno. Eu não queria ser da Silva, que da Silva é o meu pai, eu queria ser da Anunciação, como a minha mãe. Mas o que fode é essa espera. A vida toda passa pelos nossos olhos, dizem. Porra nenhuma. A vida joga a vida toda na cara de quem é da Silva todo dia, na hora de dormir. É tanto e se. E se, e se, e se, e se? E se eu não morrer hoje, como é que vai ser?)

Larga a arma, porra. Larga você, caralho. A porra da polícia vai invadir essa merda, vai morrer todo mundo. Eu vou atirar, não estou brincando, eu vou atirar nesse merda. Eu vou matar você depois, larga a porra da arma. Gérson aponta a dele para a cabeça de Arminda. E agora, hein? E agora? Solta a minha mãe, filho da puta. Eu vou atirar nessa puta, porra, vou contar até três. Solta a arma, cara, pelo amor de Deus, o cara está com tua mãe, solta esse filho da puta. Cê tá pensando que eu não atiro, tá? Atira, atira logo. Não, porra, não vamos matar ninguém. Vamos todo mundo abaixar a arma. Se foder, Dimas, ninguém vai abaixar porra nenhuma. Mata essa puta, Gérson, mata. Porra, vamos manter a calma, ninguém precisa morrer. Se ele não largar a arma, vou matar geral e começar pela mãe dele. Larga a arma, porra. Ninguém vai morrer hoje, cacete, ninguém vai morrer hoje!

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).