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Somos tramas de possibilidades e chances muitas de prováveis, sobras de quereres e faltas de coragens, mares de acúmulos e oceanos de angústias. Ao final desta soma, somos sombras de quem somos. Não somos nada além de amadores desamados [desalmados com nossas próprias almas. Escrevendo frias histórias, esfriando vontades em chamas – vivendo de interrogações várias. Nos aguardando em relógios atrasados – guardando amanhãs inalcançáveis : mantendo os hojes em conservas : saboreando sobrevivências : desembrulhando dias amedrontadamente covardes. Sucumbindo amores, saudades, verdades e coisas tantas não feitas simplesmente pela insegurança de sermos.
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Mastigando meus silêncios ouço ao longe surdos pensamentos [antro de ossos, úlceras e assombros : corcundas lembranças indispostas, embora indispensáveis para afinar os pesos sobre os ombros da alma. Entre fissuras se estriam na pele dúvidas – “quantas mortes carregamos nos braços [enquanto dispersos comungamos temperaturas mornas de corpos fantasmas? Quantas vidas carregamos nos rasos [enquanto dispostos conjugamos tempestades num copo d’água? Na inanidade dos signos todo o inferno me vem à boca, quando trago tal qual fogo na ponta do cigarro [toques, pausas e tempos não lembrados dos braços arfantes do desejo.
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Tempos não lembrados dos risos lascivos dos achegos. Tempos inalterados, elásticos e cavos dos átomos da destreza. Tempos de abismáticos descomeço, onde o novo nasce velho, onde o velho dissemina maturidade : matutinas sabedorias que despertam no primeiro cantar do galo. Emanando efeitos e reflexos extraio o líquido som do caminho – disparo sem rumo as rédeas do destino. Na vulgaridade do ato aborto desesperos e azias : cegueiras e agonias. Nesta semântica construo a semiótica das minhas pisadas. Parto vazada da memória dos meus passos. Parto vazada da memória não pragmática. Nas bifurcações dos ecos ocos das retinas suicidas, desponto.
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Como se eu te fosse estranho : como se eu te fosse intruso : como se não conhecesse em minha face o reflexo brusco da sua [numa outra época de mundo de rumo e pulsos. Numa espécie de outra espécie sem rosto, raça ou identidade. Suspensa pelas asas do vento costuro em mim pássaros e pedras. No inconcluso deste enredo existo onde desconheço-me. Embora reconhecendo neste eterno conto de nós e sombras, faltas e sobras uma vida ebriamente sóbria [que não lamenta as lágrimas, tampouco alimenta as dores. Porém, honra o fado das desimportâncias, que rogam deixar para depois o que não precisa mais deixar. Rogam desnecessariar tudo que não deu para consertar, mudar mudando as mesmas coisas de lugar [deslocando lugarejos dos não sutis defeitos : descobrindo cores das não sabidas levezas. Deslembrando ácidas memórias, desabrigando enganos que a nós mesmos enganam. “Viver é excessivo ou então é incompleto”.
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Fortes não são aqueles que resistem, mas os que perdem e não exigem : os que sofrem e não se vitimizam. Ninguém enxerga as chagas da vida sem sangrar os olhos, tampouco sente as dores sem fender o estômago. Nas sublimações dos milagres viver é um acontecer de poucas certezas, pedaços de passado e expectativas de futuro. Só estar à altura das lágrimas aquele que faz tudo para não derramá-las. Não é fácil, mas mais difícil é segue sem se encontrar como quem vive a vida sem se entregar a essência do que é viver.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.