Axiome I: Tout ce qui est, est en soi ou en autre chose.

Fala a verdade. Tirei a sorte grande. Podia ter ficado na roça e morrer sem futuro, casada com um homem pobre-porém-honesto uma penca de filhos uma casinha caiada com flores no jardim samambaias na varanda horta no quintal a vida sem inesperados. Mas não. Estou vencendo na cidade grande. Tirei a sorte grande, vim parar aqui, no doce lar da minha patroa. Não existe no mundo alguém melhor do que ela. Minha mãe. Como se fosse. Mandou tratar dos meus dentes, dos meus cabelos, me deu roupas e sapatos novos, xampu, desodorante e me ensinou a usar absorventes higiênicos. Depois que eu estraguei três guardanapos da sua toalha de mesa mais bonita. Ela me emprestou alguns livros, me botou na escola, me mostrou como olhar as palavras no dicionário, me ensinou a conversar. Já sei falar problema. Já sei conjugar muitos verbos. Nós fomos. Nós vamos. Fui promovida de babá a cozinheira. Já sei dizer o almoço está servido. Já sei fazer pratos da nouvelle cuisine. Fiz curso. Já sei lidar com aparelhos eletrodomésticos e à noite posso ver as novelas da TV Globo. Depois do Jornal Nacional. Já sei o que é Collor, Sarney, ACM e Maluf. É muita sorte. Tenho quinze anos. Dois de felicidade no doce lar. Tanta generosidade não tem paga.

Minha patroa é linda.

 

Axiome II: Une chose qui ne peut se concevoir par une autre doit être conçue par soi.

A casa está sem graça. Minha patroa está viajando sozinha. Coisa de trabalho. Meu patrão sente a falta dela. Fica irritado nervoso reclama de tudo. Ele é um sujeito pau. Cacete. As crianças os cachorros as gatas sentem a falta dela. Falar nas gatas, tenho que cumprir a ordem dele. Sumir com elas. São lindas e peludas, cheias de dengo. Minha patroa vai sofrer quando voltar e não encontrar as duas. Elas se enroscam, as três, no sofá da sala de televisão, meu patrão não consegue chegar perto. Ele odeia as gatas. Todos serão mais felizes depois. Tenho tentado fazer meu patrão feliz. Sigo todas as recomendações da minha patroa, pra que tudo saia ao gosto dele. Capricho na cozinha na mesa e na cama. Ele está irritado nervoso reclama de tudo. Faz plantão no telefone esperando ela ligar. Se ela não liga é um deus nos acuda. Aproveito a ausência dela pra remexer em seus armários vestidos sapatos joias perfumes batons. Nas caixas. Poemas, cartas de amor, retratos. No fundo da gaveta um caderno de capa marrom. Desço. Ele chega cedo. Irritado nervoso reclama de tudo.

Meu patrão é um chato.

 

Axiome III: Étant donnée une cause déterminée, l’effet suit nécessairement; et au contraire, si aucune cause déterminée n’est donnée, il est impossible que l’effet suive.

A minha angústia é um ovo. Equilibrado numa colher. Nasci entre as montanhas, o que explica a minha falta de ar crônica. Em parte. O crocodilo não consegue pôr sua língua pra fora da boca. As cobras são surdas. Elas sabem que alguém está se aproximando pela vibração do solo. Os abutres de Rüpell são as aves que voam à maior altura. Já foi detectado seu voo a onze mil metros, que é a altura normal de voo de um jato de passageiros. O material mais resistente criado pela natureza é a teia de aranha. Ovelhas não bebem água corrente. O elefante é o único animal com quatro joelhos. Ratos não vomitam. O galo cantou três vezes e o menino nasceu morto. Dezembro é um mês faminto. O amor, que além de pó, foi poesia. Quando você me olha com as mãos e me pede com os olhos. Imediatos e absolutos. Depois, esquecer o sentido secreto de todas as coisas que são, que não têm dó da gente e permanecem. Nem tudo o que eu escrevo, existe. Mas isso eu não posso provar.

Copiei de páginas salteadas do caderno de capa marrom da minha patroa. Procurar no dicionário: angústia crônica vibração detectado resistente permanecem. Quem será Rüpell? E este menino nascido morto? De quem os olhos imediatos e absolutos?

Minha patroa cria cobra.

 

Axiome IV: La connaissance de l’effet dépend de la connaissance de la cause, et elle l’enveloppe.

Tem mais de uma semana que o patrão não me procura. Tirando as vezes em que ele viaja, nunca ficamos tanto tempo assim. Desde a primeira. A primeira foi alguns meses depois que cheguei ao doce lar. Estava no começo da minha fase de transformação. Quando a patroa mandou botar meus dentes da frente, hidratar e cortar meus cabelos. Quarta-feira. Pouco depois das quatro da tarde. A casa estava vazia e eu estava no meu quarto. Ele entrou mudo. Subiu em cima de mim e veio com tudo. Saiu calado. Assim começou o nosso relacionamento. Li nas revistas femininas que estou vivendo um relacionamento. Algumas vezes tentei discutir o nosso relacionamento. Ensaiei algumas frases. Quando disse a primeira, ele riu debochado e saiu do meu quarto. Não tive coragem de insistir. Tenho dezoito anos. Há quase cinco anos o nosso relacionamento é assim. Silencioso. Sem risos e beijos e gemidos. Procurei nas revistas femininas bons conselhos pra atrair um marido desinteressado de volta. Segui todos. Não valeu de nada. Meu patrão mal me vê. Ontem, depois que foram se deitar, subi as escadas de mansinho, no escuro. Fiquei ouvindo atrás da porta do quarto deles. Riam os dois. Escutei o barulho dos beijos. Quando começaram os gemidos, desci correndo. Hoje, no café da manhã, minha patroa estava distante, o olhar comprido, cheia de cerimônia. Ela disse o que eu gosto mais numa casa são as janelas. Onde já se viu? Meu patrão pegou a sua mão, passou no rosto dele e a beijou. Ela disse parece que vai chover. E sorriu. Sorriram.

Minha patroa é a outra.

 

Axiome V: Les choses qui n’ont entre elles rien de commun ne peuvent se concevoir l’une par l’autre, ou en d’autres termes, le concept de l’une n’enveloppe pas le concept de l’autre.

Nosso relacionamento está cada vez melhor. Raro o dia em que o meu patrão não aparece no meu quarto. Ele vem, sobe em mim e pronto. Não diz essa boca é minha. Não geme. Não beija. Não ri. Uma vez acho que disse baixinho você é muito larga pra sua idade. Ou você não larga mais a cidade. Bem no meio da hora. Eu perguntei o senhor disse alguma coisa. Ele não respondeu. Outras vezes me chamou pelo nome da patroa. Não perguntei nada. Sou feliz. Faço parte da alegre minoria de mulheres que sentem prazer na maioria das vezes, conforme li nas revistas femininas. O resto finge. Ele é muito gostoso. Nem se compara ao meu pai, que montava em mim lá na roça, fedendo a pinga, sem banho há dias, um nojo. Era um custo pra acabar. Foram três anos suportando o peso do meu pai. São seis anos de relacionamento com o meu patrão. Sinal da minha sorte. Que eu devo à minha patroa. Um dia, recolhendo a roupa no armário de roupa suja do banheiro dela, achei uma calcinha que ela esqueceu lá. Usada. Cheirei. Minha patroa tem cheiro de égua. Seu cheiro é doce e sal. Guardei a calcinha sem lavar debaixo do meu travesseiro. Foi quando o meu patrão voltou.

Meu patrão é infeliz.

 

Axiome VI: Une chose vraie doit s’accorder avec son objet.

Festa no doce lar. Aniversário da minha patroa. A casa está cheia de balões, flores e gente. Todas as luzes estão acesas. Música. Os garçons vão e vem servindo bebida canapês salgadinhos finos enfeitados. Tudo de primeira. Alguns casais dançam à beira da piscina, há pessoas felizes e risonhas por toda a parte. Minha patroa circula entre os convidados. É uma nuvem com uma taça de vinho na mão. Vou e volto da sala à cozinha dentro do meu uniforme de gala. Deslumbrada. Quem diria que um dia eu estaria numa festa assim? Uma caipira. Que não tem no cu o que o periquito roa. Mais respeito: que não tinha. Estou vencendo. Pela bondade da minha patroa, que me ensinou até a comer flor. Ela vem com o canapê na mão, você tem de provar, uma delícia, menina, é de violeta roxa. O gosto é bom. Minha patroa ri, balançando a cabeça. Seus brincos de diamantes cintilam. Presente do meu patrão apaixonado. Ele não tira os olhos dela. Daqui a pouco o jantar será servido. Desta vez contrataram um bufê famoso. A ocasião exige o requinte. Vou e volto da sala à cozinha dentro do meu uniforme de gala. Orgulhosa. Aos vinte anos de idade, vencendo a vida. Fiscalizo tudo. A festa da minha patroa tem que ser perfeita. Ela merece. Na ida o garçom esbarra em mim. Na volta ele passa a mão em mim. Quando esta festa acabar, vai começar outra no quarto do casal. Como sempre. Quando esta festa acabar, vão começar duas festas. Já combinamos o garçom e eu. Hoje ele dorme no meu quarto.

Meu patrão é corno.

 

Axiome VII: Quand une chose peut être conçue comme n’existant pas, son essence n’enveloppe pas l’existence.

Acabei de fazer as malas. Tive muito trabalho pra ajuntar tudo o que ganhei no doce lar. São quatro malas de roupas, duas de sapatos e etc., três caixas com o enxoval lindo que a minha patroa fez pra mim, duas sacolas de bugigangas sortidas. Na bolsa levo meus documentos, jóias, dólares, caderneta de poupança, o caderno de capa marrom da minha patroa e um envelope gordo, que ganhei dela como recompensa pelos bons serviços prestados nos dez anos que vivi aqui. Eu venci. Oito cursos de culinária depois, lá vou eu. Vou embora porque quero, pedi demissão do meu cargo. Minha patroa entendeu que chegou a hora de me virar sozinha. Ela me abraçou e disse as portas desta casa estão sempre abertas, se você quiser voltar. Não vou voltar. Quero a minha casa. Com muitas janelas. O que eu gosto mais numa casa são as janelas. Há três anos o patrão parou de me procurar. Não valem de nada os bons conselhos das revistas femininas. Mudo como começou. Corno, gostoso, chato. Infeliz. Arrumei namorado, um dois três vários. Estou grávida. Minha patroa não sabe. Grávida de um, vou me casar com outro. Se for menina, vai ter o nome da minha patroa. Como se fosse minha mãe. Meu marido não sabe que a filha não é dele. Eu não sei que o meu marido é alcoólatra. É muita sorte.

Eu amo a minha patroa.

 

[Axiomes de Spinoza, L’éthique | Imagem ©Laura Makabresku]

 

Escrito por Silvana Guimarães

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Escritora e socióloga, participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: "29 de abril: o verso da violência" (Patuá, 2015), "Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas" (Terracota, 2009), "Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2" (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e "1917-2017 — O Século sem Fim" (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Vive em Belo Horizonte.