AS HORAS

E foi no dia em que todas
As horas pareciam mortas
Que eu me encontrei em tua alma.
E, quando me encontrei
Em tua alma, quando todas as horas
Ainda pareciam mortas,
Eu notei que não eram as horas
Que jaziam como as velhas luas:
Os meus olhos, cegos para
A luz de tua alma,
Não viram que todas as horas
Vivem à medida das tuas.

 

SERENIDADE
Vai sereno, vai sereno, através do mundo,
Como se pouco ou nada na terra houvesse…
Se sofreres, faz dessa espiritual messe
O sublime fecundar de teu sonho fundo..
.
Vai sereno… sê um astro ao alto, fecundo,
Ou um abismo horrente de milenar prece…
Vai como se o universo em mãos tivesse…
Vai sereno, vai sereno, através do mundo.

Passa pelo tempo como o sol pelo céu!
Vai assim, acima do rude, vão escarcéu,
À beleza de uma ilusão em ardentia…

E, no entanto, apesar da sofrida pena,
Crê que a dor é das quimeras a mais plena,
A que dos astros guia-nos para a alegria…

 

————–
A Morte me disse, certa vez,
Que embora muita vida pulsasse,
A vida é um reino fugace
Que – não importa a era – não tem reis.

Neguei, julgando ser insensatez
Que a Morte assim me falasse
Sobre a vida sem que a face
Do viver me contasse suas leis.

Mostrei à vida, então, um retrato:
Na mesma sala, eu bem infante,
Com o olhar em fulgor inexato…

“É a crença que reina os mundos!”
E ela: “É morto o instante,
Nada o agora. São reis os segundos!”

Caio Cardoso Tardelli é poeta, ensaísta e pesquisador. Autor de “A Torre Invedada – Vinte Ensaios sobre o Simbolismo Brasileiro” (Maçã de Vidro, 2015) e “Perfumes que Ficam” (Kazuá, 2015).