Condução

ninguém se surpreende mais
da velocidade que as imagens
passam na nossa frente,
tipo o instagram
ou o correr do ônibus pela paisagem da cidade:
muros maquiados de grama
carros tubos caminhantes estudantes
pilhas e pilhas de casas escritórios consultórios laboratórios
plantas solitárias
janelas e janelas
eis que!
surge uma costa
e senta em uma delas
rebola o corpo todo
procurando a melhor posição
uma acrobacia no buraco sem grade
meu coração treme
grita pra dentro
NÃO CAIA DAÍ MOÇA
NÃO PULE DAÍ MOÇA
o braço esquerdo dela é posto para o lado de fora
se apoia na vidraça
vejo que a camisa
azul marinho
tem uma listra branca na manga

a mão acaricia com a flanela
em movimentos
delicados
e circulares
minhas costas transparentes

e o sinal abre.

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Mulher de negócios

Fui vender uns livros ruins no sebo
pra fazer a feira semana que vem.
-Vinte e seis reais, ou quarenta de troca.
Trinta, vai, moço?
-Não.
Peguei o dinheiro e só de raiva
lambi várias páginas da obra completa do lorquinha
que custa cinquenta reais
minha língua ficou com gosto de papel velho
e eu fiquei meio assim
de tocar
tão de perto
meu silêncio ondulado.

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Férias

Acordei tarde, perdi uma palestra sobre índios e queers,
não queria por roupa.
Desconfiei do barulho da capinadeira que se estendia pela semana
olhei pela janela da sala de jantar:
estavam derrubando árvores no entorno da casa.

Fazia três dias eu sorri vendo aqueles galhos floridos de pontinhas brancas
dançando as minhas escolhas do youtube.
Eu dizia que esse lugar talvez fosse a coisa mais próxima de uma óca que eu viveria,
por ser, salvo alguns vizinhos,
rodeada de árvores.
Isso eu pensei depois de ver “martírio” e chegar em casa.

Chorei vendo minhas amigas sendo assassinadas
e eu acordando pelos tiros da serra elétrica
por dias a fio
minha boca tá com gosto de morte
estou tomando coragem pra ir ver de perto
as que ainda restam
me olhando.

Abri os contos do Mário,
caiu no primeiro de maio
“Não era mêdo, que ele sentia fortíssimo, era pânico. Era um puxar unânime, uma fraternidade, era carícia dolorosa por todos aqueles companheiros fortes tão fracos que estavam ali também pra…pra celebrar?”

A primeira vez que entrei no terreno
baldio delas,
uma revoada de ar bateu no meu rosto e
todas balançaram,
fiquei tonta e comi várias framboesas.
Voltei de mãos cheias pra casa,
Clara não quis,
Di fechou os olhos e abriu a boca.

Hoje me vesti de preto
fiz café
e fui escrever

antes, voltando do show de horror na tela do meu quintal
sentada em frente à mesa da sala
poças nos olhos
chove da minha boca e no céu
“mamãe, coragem”
e me pergunto:
mamãe? eu?
que só te olhava, assim, de longe…
fui ouvir a música essa noite:
quem tá falando comigo?
os olhos da Gal? Torquato? Dona árvore? Eu memo?
Não sei.

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Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, bailarina de rave, artista visual, curadora principiante. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo. Hoje vive em Curitiba (Paraná).