Era segunda, quarta ou quinta. O dia certo não importa. E aquele homem perambulava no calçadão como qualquer homem presente no mundo, perdido no mundo. Não havia quem o notasse, e se porventura alguém o houvesse notado, esse alguém guardaria segredo para si mesmo, após esquecer a imagem daquele homem tão comum aos outros homens. Foi então que ele, sozinho, perdido, anônimo… Foi então que ele cruzou o calçadão em direção à praia, à aglomeração de pessoas que rodeavam um enorme bicho na areia. O homem, pela primeira vez na vida, viu uma baleia gigantesca morta.

Ao redor da baleia, o amontoado de gente. Homens e mulheres correndo com baldes d´água numa tentativa absurda de salvar o animal. Adolescentes fotografavam-se com a baleia estática ao fundo. Homens e mulheres rindo, alguns em tom de zombaria. Esse era o mundo naquele exato instante. O homem já não sabia ao certo se a baleia estava realmente morta, pois aquilo também arfava.

Inexplicavelmente o homem sentiu medo de estar vivo, pois morrer seria a pior das coisas. Ao morrer, alguém ali próximo daria gargalhadas, enxergaria sua morte como mero acontecimento, um pássaro voando, uma rua movimentada. Seria uma nesga de sentimento jamais íntimo e cúmplice. Estar morto ou vivo não alteraria o significado da realidade. Provavelmente um pedaço de recordação invisível e incômoda. Uma recordação em língua árabe, isto é, incompreensível. E aquilo era novo no sentimento e na cabeça do homem.

Ele era sozinho no mundo, sem mulher ou filhos. E ver a baleia quase morta trouxe-lhe recordações que não são recordações, pois ele, até aquele momento, não havia se dado ao prazer de refletir sobre a vida.

Se a baleia estivesse realmente viva, ela enxergaria o homem? O homem teria um átomo de certeza maior sobre o mistério da morte caso a baleia não agonizasse na frente das pessoas? Henrique era o seu nome. Nome de criança calada, nua num terreiro cercado de palmeiras, o chão vermelho. Ele fora criado por duas tias que não casaram. A mãe o abandonara e o pai havia viajado para alguma capital do país em busca de trabalho. Mas ele nunca voltara. O pai nunca enviara um tostão ao filho, que crescera calado e obediente, até se deparar com uma baleia encalhada na praia.

Mas não, a baleia não é a criatura mais chocante na cabeça de Henrique. Ela é um pedaço imenso de carne com dois olhos molhados que se destroem quando se cruzam com olhos humanos. Ou na verdade, aqueles dois seres vivos compartilharam a cegueira de não desvendarem qual fatalidade haviam dividido em plena segunda, quarta ou quinta. Na liberdade de pensamento, não é injusto dizer que a baleia não queria ser homem, e o homem não queria ser baleia.

Surpreso, sem nenhuma palavra na boca. O homem arregalou os olhos, quase que em choque, igual aos que lentamente mostram os dentes em surpresa. A areia entrava nos seus sapatos durante aquela aproximação e afastamento simultâneos. Uma baleia como nos documentários. Uma baleia de espécie desconhecida. Os carros do outro lado da avenida buzinavam, contribuindo para o engarrafamento daquele horário.

Henrique estava sendo alguém parado, meio bobo. Ele era uma mistura de surpresa, abnegação e abismo. O barulho cada vez mais constante dos baldes d´água sobre a baleia. O corpo grosso e preto. Um mistério grosso e preto.

Henrique – em sua lentidão abobalhada – tomara para si a certeza de que o animal já estaria morto, mesmo se arfasse ou expelisse aquele jato de água das baleias. Seu pai não voltara, seu pai morrera. E Henrique pairava sobre o calçadão que pairava sobre a certeza de que o pai, tão idiota, havia desperdiçado o amor ao próprio filho – como se expelisse gratuitamente aquele jato de água das baleias.

Então ele seguiu em frente, percebendo-se distraído falsamente. Um passo após o outro sem direção. Quase em linha reta, olhava para trás, a baleia cercada por gente, o som ao fundo dos baldes d´água, as pessoas amontoadas, as gargalhadas.

Por sorte do destino e por um milagre de Deus, a baleia sobrevivera – foi a informação que os jornais noticiaram. E o homem também – ambos com os olhos molhados.

*Antônio LaCarne é brasileiro, nasceu em 1983. É autor de “Salão Chinês” (Patuá, 2014), “Todos os poemas são loucos” (Gueto Editorial, 2017). Participou das coletâneas “A Polêmica Vida do Amor” (Oito e Meio, 2011) e “A Nossos Pés” (7Letras, 2017) e “GOLPE: antologia-manifesto” (Nosotros Editorial, 2017). Seus textos estão presentes em revistas e suplementos literários, além de ter poemas publicados na Colômbia.