A BANDEJINHA DE TOMATINHOS-CEREJA
  
(André Nogueira)
  

Ela entrou no cruzamento sem dar seta
e parou o automóvel todo torto,
esfolando as calotas na guia.
Desmontou o bebê-conforto
e o menino da perua ela descia,
quando um jovem embicou a bicicleta
e gritou da rua à feira:
“É assim, estacionando na ciclovia,
que vocês vão construir um mundo novo!?”
Mais um pouco tudo em paz,
menos terrível parecia o bom rapaz
do capacete desarmado e joelheiras,
nas mãos tendo um maço de couve.
À sombra das árvores, quanta harmonia!
Orgânicos ovos sacolas enchiam,
verdes maços hidropônicos
em bandejinhas bio-degradáveis.
Enxugo a testa ao sair do ônibus
e meu rosto adquire um ar suave…
Minha térmica sacola estaciono
no banquinho do playground
com as trufas, chocolate
ao leite zero lactose
e café sem cafeína onde a dose
que acrescento é uma só, de sucralose.
Papai dá tudo o que desejas,
não é mesmo, pequerrucho?
Forrem, pois, com alfacinhas de estufa
e pãezinhos sem glúten, seus buchos.
Nas sacolas das senhoras
e bolsas dos pós-graduandos
sempre cabe alguma última bandeja.
Pois comprem minhas trufas
e, quem sabe, eu também me dê ao luxo
de levar para casa uns tomatinhos-cereja?
  
“Essas manteigas e esses queijos
não derivam só do leite,
mas de um trato humanizado!
Pois melhor para a saúde é o produto
que do amor é derivado
e livre, em absoluto, do alheio sofrimento.
Gatantir a vida digna ao gado
custa a mais uns cinqüenta por cento.
Não existe outra mais rica
que servir em tua mesa:
esta nanica é ouro e prata de verdade!
Pois com essa bio-massa se edifica
uma vindoura sociedade
onde o amor há de reinar, a natureza
e o bem-estar da humanidade!”.
  
Convenceu-me a propaganda
e uma vez que também sou pós-graduando
(não-bolsista, infelizmente, mas também interessado
em construir um mundo mais justo)
resolvi arcar com os custos,
empreguei os meus suados
cinco mangos e cinqüenta
e coloquei os tomatinhos na sacola
(ao fim da feira a derradeira bandejinha…).
Os bebês sobre o conforto dos assentos
e as sacolas no macio dos bagageiros,
afastaram-se as peruas das senhoras derrapando
pois passava do horário de os levar para a escola.
Tilintavam os vidrinhos de azeite extra-virgem,
os orgânicos ovos dos universitários
nos cestos das bicicletas pela ciclo-faixa.
Já eu abraço meus tomates
e meus passos se dirigem
ao saguão do terminal rodoviário
onde me aguardam para engolir meu ouro
as dentadas engrenagens besuntadas pela graxa,
pelo sebo e pelo sangue do esfolado couro
dos milhares de trabalhadores e trabalhadoras
que em qualquer dia de feira
entram em fila pelas portas dianteiras
e são esmagados como gado de bois e vacas,
empurrados às catracas como ao abatedouro.
Protejo-a, a bandeja
como aos ovos de minhas partes baixas…
A catraca me lembrava já
do liqüidificador a pá
quando emperra o chocolate
e só resta empurrar a colher de pau.
Separam-se da massa as cerejas
pela classe, o círculo da faixa social.
Enquanto o ônibus lotado sacoleja
eu já sinto a sacolinha gotejar
e estou sangrando meus tomates
quando desço no ponto final.
  
Junho 2016

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com