a vitrola suspendia os riscos e fazia a agulha percorrer a vastidão de um álbum de rock progressivo dos anos 70; o som vinha de um cômodo anexo. de pura velhice aderida ao desembaraçar das flores estampadas, que um dia foram azuis. era um chão de lajotas acinzentadas, as luzes que transpassavam as paredes de vidraças da casa de cristal e de plantas batiam nele. foi aí que entrou Vitorino.

foi aí que ele entrou e pisou de maneira que pareceu tropeçar nas flores invisíveis das lajotas. ele deixou a porta escancarada para sentar-se corrido no sofá verde musgo, em profundo desacordo estético com o veludo preto de seu sobretudo. Vitorino não se via refletido, confortável ou identificado, apenas paralelo de sua própria imagem em baixíssima definição. dele, não havia vapores condensados, que viriam, possivelmente, do exalar de suas narinas. na insistência, ele não paravade respirar, tomava goles imensos de ar, pôs as mãos em frente à boca e soprou para um não sentir, fosse de frio ou de calor.

eu sabia, para a sua situação, não havia saída: a impossibilidade de interagir com os quatro elementos via cinco sentidos é ruim demais. corremos a vida toda com um único fim: deixar marcas no mundo. carimbos, filhos, pegadas, cachecóis: os seres humanos nasceram para deixar rastros. os seres humanos são caracóis.

no cômodo anexo, vivia nosso irmão mais novo, Felício. as cores, além do cinza e do amarelo, ele não enxergava. tinha um ouvido absoluto. na impossibilidade de comprar um piano, mamãe deu pra ele uma vitrola. Felício era feliz, e ao lado dele corríamos no entorno da casa somente, pois a proibição de brincar aqui dentro, na época em que éramos crianças, tinha o efeito de uma lança prestes a cair sobre nossas cabeças. só de imaginar o que seria feito de nós se alguma daquelas vidraças quebrasse.

por essa razão, nosso corpo era igualmente feito de transparências, corríamos como que envidraçados, a ponto de nos estilhaçarmos a qualquer momento. das emoções, éramos reféns. todos podiam assistir a dança em compasso dos nossos corações vermelhinhos de crianças, o que era bonito a princípio, mas virou um incômodo com o passar do tempo. éramos três ramos mal cultivados em vasos sem terra e água suficiente, expostos

na alegria e na tristeza pelas paredes da casa de cristal e de plantas. assistíamos, de trás da nossa vitrine particular, as reações de desprezo e compaixão no rosto das pessoas que nos observavam. a luz solar passava por nós, mas não tínhamos a capacidade de retê-la, o que era, de longe, nosso maior problema.

um clássico de John Coltrane: Blue Train. Felício trocou o disco. veio o solo de sax, Vitorino tamborilou os dedos na almofada, provavelmente, para conferir quais são os dedos que sobram depois que os anéis se vão. Deitado, ele olhava para o firmamento, não perto de estar feliz. a melodia me fez arriscar uns passinhos de dança,

pulei um ou dois corpos de andorinhas secas no chão, sonhei com o calor de um gole de conhaque e acompanhei a linha de sax improvisando baixinho. Vitorino era incapaz de me ouvir e não sei bem por quê fiz isso.

Felício apareceu, me puxou para dançar, a noite chegou, era nossa e era doce.

* * *

rua aspicuelta, 987, o dedo do senhor Amadeu percutia a campainha no compasso do jazz. havia gente na casa, a música alta provava isso, assim como o homem que o atendeu à porta mas se recusou a receber a encomenda.

o que não era nada inédito para os 30 anos de profissão do velho, afinal, as pessoas se assustam com a concretude dos objetos dedicados à morte. neste caso, uma lápide com caracteres esculpidos à mão, na qual se lia as seguintes inscrições: aqui jaz Vitorino Neto Picollo, São Paulo, 1969 – 2016.

 

 

* Este conto faz parte do livro “Roteiros para uma Vida Curta” (Editora Reformatório).

Escrito por Cristina Judar

Escritora e jornalista, natural de São Paulo, Brasil. Autora das HQs "Lina" (Estação Liberdade) e "Vermelho, vivo" (Devir) além do livro de contos "Roteiros para uma vida curta" e do romance "Oito do Sete", ambos publicados pela Editora Reformatório. É autora do projeto de prosa poética "Questions for a Live Writing" e editora da revista de arte e cultura LGBT Reversa Magazine.