Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…

Machado de Assis, O espelho

August Kekulé, em Les problèmes d’un problème (Paris, 1917), discute em ordem cronológica as soluções do ilustre problema de Aquiles e a tartaruga. É neste contexto que afirma, em sua incursão sobre o conceito de tempo, que o número oito é universalmente considerado o símbolo do equilíbrio cósmico. Segundo Kekulé, o oito (8) possui um valor de mediação entre o quadrado e o círculo. Deitado (∞), simboliza o infinito, a inexistência de princípio ou fim; simboliza o elo entre o material e o espiritual, o telúrico e o divino. O Dharmachakra, símbolo budista mais antigo de que se tem notícia, representa o Nobre Caminho Óctuplo, isto é, concentra os oito elementos do caminho “correto” (samyañc) ensinados por Buddha para debelar as raízes do sofrimento; Buddha, por sua vez, que nasceu no oitavo dia do quarto mês do calendário chinês. Oito também são as bem-aventuranças pregadas por Jesus no Sermão da Montanha. No judaísmo, o brit milah, símbolo da aliança perpétua entre Deus e Abraão e seus descendentes, ocorre no oitavo dia de vida de um menino. Marcante também é a observação de Kekulé, a propósito da relação entre tempo e autoridade, ao evocar o comentário de Samuel Taylor Coleridge sobre a passagem de Macbeth (IV, i) em que, tendo perguntado às três bruxas se a raça de Banquo reinaria, Macbeth testemunha a aparição de um desfile de oito reis, o último dos quais com um espelho na mão, acompanhados por um Banquo ensanguentado.

Estando em Lyon por ocasião do lançamento da antologia poética de Percival Lungov, depois de repimpar com dois omelette du fromage e uma sobremesa cujo nome não me recordo, sucumbi a uma poltrona aveludada junto à lareira do foyer do hotel e abri minha edição inglesa de Les problèmes d’un problème. Na companhia do fogo, rivalizei com a madorna e, entre a quarta e a quinta página, vencido, dormitei. Eruditas as avós que dizem que barriga cheia faz bom sonho: devaneei uma serpente que comia sopa de letrinhas e cagava em ordem alfabética. Despertando arquimediano, decidi homenagear Kekulé com este ensaio cabalístico:

arroba rabo evocador voo cedo barra boro ovo
ovado acordo árvore bobo bárbaro barco revoo arroba
A R R O B A R A B O E V O C A D O R V O
O C E D O B A R R A B O R O O V O O V A D O A C
O R D O A R V O R E B O B O B A R B A R
O B A R C O R E V O O A R R O B A

oroboro

Escrito por André Balbo

André Balbo (San Pablo, 1991), es editor de la revista Lavoura. Autor de los libros de cuentos “Eu queria que este livro tivesse orelhas” (Oito e meio, 2018 – em prensa) y “Estórias autênticas – importunâncias do engenho alheio” (Patuá, 2017). Fue colaborador invitado de la 25ª edición de la revista Philos – Revista de Literatura da União Latina. Participó de las antologías “Civilização e Barbárie” y “Sobre humores e fluidos” (Gueto, 2017), y de la colección de cuentos “Tabu” (Carreira Literária, 2017). Estudió derecho en la Universidad de San Pablo, en la cual fue columnista y editor en jefe del periódico Arcadas, pero no concluyó el curso. También ya fue trainee de la Folha de S.Paulo. Es profesor particular de redacción, literatura y filosofía para ingreso universitario, y trabaja como revisor y redactor freelancer. E-mail para contacto: balbo008@gmail.com