estou sentada no parapeito enrolada na toalha velha. você fuma um cigarro e me olha de canto de olho certo de que nada vai acontecer. nenhuma tragédia mistério aventura notícia de acidente queda do décimo andar suicídio quem sabe tudo tão démodé. não tem coragem, pensa, enquanto dá mais um trago e caminha em círculos na sala.

papai dizia que eu era fraca que eu não podia suportar o peso do mundo. mas também que peso alguém como você pode ter que suportar? nunca soube responder à pergunta de papai e passei a vida tentando medir o peso das coisas. vale o quanto pesa, dizem, quanto você me pagaria, quis perguntar, cem reais?

era uma vez uma menina muito bonita, tão bonita que dava vontade de chorar. certo dia abriu o guarda-roupa e colocou seu melhor vestido, era um vestido branco com laço vermelho combinando com os sapatos, tão bonita, caminhou por cinco minutos contados no relógio de pulso e parou no banco de uma praça qualquer, tão bonita, olhou fixamente para uma teia de aranha no braço do banco e adormeceu.

eu tremo de frio no parapeito enquanto tento ouvir alguma coisa palavra qualquer barulho que seja um resmungo e vou fingir mudar de ideia que você me convenceu. mas a verdade você sabe é que nada vai acontecer. vou ficar ali tremendo tanto tempo respirar fundo e entrar pela janela.

era uma vez um gato de apartamento que tinha o hábito de morder a rede de proteção da varanda, sempre no mesmo lugar. certo dia um fio arrebentou. o gato colocou a cabeça para fora, as duas patinhas da frente, inclinou o corpo como que pronto a dar o salto e miou miou miou miou, até que a menina dona da casa puxou o bichano pelo rabo. o gato nunca mais chegou perto da janela.

papai ficaria decepcionado com a cena. você sempre foi fraca, diria, mas também que peso alguém como você pode ter que suportar? olho para baixo me inclino um pouco mais balanço as pernas me inclino um pouco mais. a cidade é mesmo bonita do parapeito, penso.

era uma vez uma bailarina que depois de um acidente nunca mais poderia dançar, disseram médicos, os melhores do país, seu pai era um homem muito rico e investiu em todo tipo de pesquisa para ajudar a filha. sete anos depois, novo remédio no mercado. terminado o tratamento, bem-sucedido, é importante dizer, a bailarina  pegou sua sapatilha e correu para o estúdio. colocou os sapatos e  girou e dançou e dançou e girou e dançou na ponta dos pés, até que tropeçou, bateu a cabeça na barra de exercícios e morreu no mesmo instante.

era uma vez uma criança que não queria aprender a falar. mamãe tentou de tudo, terapeuta, pedagogo, reza, benção, hipnose. nada aconteceu. quando a criança completou nove anos, ela falou a primeira palavra. mamãe chorou, contou à vovó. a vó chorou e contou à tia. em instantes a família soube da notícia. a mãe sorriu e ordenou: repete, repetiu, repete, a mãe dizia, e a criança repetia. repetiu exaustivamente no skype, no stories, whatsapp, à vovó, à tia Ana, ao cachorro, a criança repetiu até que se calou e a mãe implorou repete repete repete. mas a criança ficou quieta.

é mesmo bonita dali do alto. tem até horizonte até parece até parece, risos, que algo vai acontecer.

 

 

Escrito por marina b. laurentiis

nasceu em São Paulo capital, e viveu sua infância e adolescência no interior do estado. Graduou-se em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas. Retornou à cidade de São Paulo para cursar Letras na Universidade de São Paulo. A poesia é meu todo.