Não mais temas o calor do sol
Nem as iras do inverno furioso

William Shakespeare, Cymbeline

Escrevi meu obituário aos vinte e dois anos e até hoje não consegui morrer. Ambíguo e prescindível considerar em que momento a coisa degringolou. Desgraçava-me em minha melancolia. Embaralhava-me em minhas incapacidades. Desapossava-me de mim mesmo. E o abismo enfeitiçava-me com suas línguas de fogo fantasiadas de branca névoa.

“Não mais temas”, alguém disse. Temi. E aos vinte e três quis vestir a aflição do caminho sem volta profanando meu único cultivo: deletei em perpétuo do computador todos os meus arquivos de texto. Dezenas de contos, alguns ensaios, projetos de romances e outros devaneios, incluindo meu obituário. E procedendo aos bocados logo descobri a inclinação dos edifícios – experimentei a vertigem do sexto sentido. Aos vinte e quatro descobri entre as propriedades do espelho o talho. E na seiva corrente descobri os segredos do abismo – do símbolo à matéria, fui entender.

Mas, cremando em ações, comecei a escrever sobre espelhos: sonhá-los em suas mecânicas recônditas e assimetrias particulares. Descobri que espelhos são líquidos. Descobri que espelhos são feitos da mesma substância que a água. E descobri que a água vence o fogo. Não no sentido vulgar; vence o fogo como convite. Vence o fogo como abismo – assume seu lugar. Esse embate elementar, fui descobrir aos vinte e cinco, sonhava não mais nas veias gritantes, não mais nos reflexos congestionados, mas em sentenças talhadas em novos textos: contos, ensaios, projetos de romances e um novo obituário.

Da matéria ao símbolo, fui pensar com alívio tão sedativo quanto efêmero, pois precisei de muito pouco para descobrir que, fora da ficção, para sempre será do símbolo à matéria. Os abismos da fantasia são distrações patéticas que postergam em vão o pélago dos olhos abertos.

S. Paulo, 5 de janeiro de 2018

Escrito por André Balbo

André Balbo (San Pablo, 1991), es editor de la revista Lavoura. Autor del libro “Estórias autênticas – importunâncias do engenho alheio” (Patuá, 2017). Participó de las antologías “Civilização e Barbárie” y “Sobre humores e fluidos” (Gueto, 2017), y de la colección de cuentos “Tabu” (Carreira Literária, 2017). Estudió derecho en la Universidad de San Pablo, en la cual fue columnista y editor en jefe del periódico Arcadas, pero no concluyó el curso. También ya fue trainee de la Folha de S.Paulo. Es profesor particular de redacción, literatura y filosofía para ingreso universitario, y trabaja como revisor y redactor freelancer. E-mail para contacto: balbo008@gmail.com