1

contorno o estrondo
com um fiasco de argila

ardem os pequenos olhos
ardem sobre a água do tempo
ardem sob a face que dilui a terra

acima do todo
o pássaro suprime o voo
devora as próprias asas

o coração ressurge
dentro das coisas miúdas
intocadas pelo medo –

uma mulher não acaba.

2

me desmonto nesta paisagem
que não existe
impiedosa resignada bela

úmido emaranhado de pedras
levantando escombros
me arrastando me arrastando

é neste ponto mais fundo
que toda vida exaspera
evade e passa:

sob a pele a ferida é rasa
e o peso inacabado –

sei que estou caindo.

3

tomada por azuis pausas espasmos
flores luas suspensas no quarto
águas que não partem nunca

eu sei de um útero
entretendo temperaturas
incólume não-lugar
túrgido de alicerce e cheiro

perdendo-se inteiro

de onde desponto
jamais seria erro
esse par de âncoras.

Escrito por Priscila Rôde

Priscila Rôde nasceu em Salvador/BA em 02 de maio de 1991. Escreve nos blogs priscilarodec.wordpress.com e Litteralis. É Autora do livro “Para que fiques”, publicado pela Editora Penalux em 2012. Tem poemas publicados nas revistas Germina, Mallamargens, Samizdat, Capitolina Cutural, Cultural Novitas nº 11, no site LiteraturaBr e no Jornal Relevo. Participou da organização da antologia “Crônicas de um amor crônico” (Editora Penalux/2015).