DÊ-LHES O TROCO
ou “Não desça na via”

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DÊ-LHES O TROCO
ou “Não desça na via”

(André Nogueira)

1.

– O homem quebra o trem?
Ou é o trem
que quebra o homem!?

Sem braços, brandia o cotoco –

Quem?
Um mendigo, talvez?
Palhaço ou louco?
Ou seria esse homem
um profeta de muletas?

A impecável lucidez
destas palavras que falou-me
reproduzo ao pé da letra.

2.

Amigos, quem veio primeiro?
O ovo, a galinha?
Pois eu digo: o galinheiro.
Todo dia nesta lata de sardinha
entrar e sair e de novo rolar
pela escada rolante…
Começou o quebra-quebra.
Porém nada veio antes?
Já explico:
existem dois gumes
no corte de verba.
No horário de pico
é que chega ao cume
o lucro dos ricos.
Mas um dia eles recebem
o troco
da plebe
e fogo
no circo.

3.

Do outro lado do vagão um homem grita:

– Se o ovo ou a galinha ou se os dois,
o importante é rechear minha marmita!

Arroz com feijão, feijão com arroz…
Das batatas as pepitas
que se guardam em isopores.
De mistura? A porção magra
de umas carnes no alumínio:
pelo trem no moedor
os esqueletos dos senhores,
uma vez que emagreceu salário mínimo.
Cabem dois no acento vago,
mais de cem uns sobre os outros.
Que achou do shoping-trem?
Aqui encontram-se biscoitos
e olha a água, geladinha e mineral:
a menininha não tem oito,
e carregando esse isopor pelo vagão
grita: “Era três,
levou agora é um real!”
Assim as filhas de vocês
a crise pagam
do patrão,
as gordas malas que alimentam
algum “boom” do capital.

4.

Quebrem os lacres e acionem
o botão de segurança!
Pois o povo que não come
mata a fome de vingança.
É tão certo
quanto a justa matemática,
a lei irrevogável da ação e reação.
E tão decerto nos liberta
dessa lástima metálica
um brinde de explosão…
Façam tim-tim os coquetéis.
Eles não crêem?
À nação proclamaremos
a razão do teorema
em abundantes decibéis.

5.

“Não desça na via”, diz o cartaz.
O amor pelo trem é tão grande…
existe quem morra beijando esse trilho.
A maioria, como faz?
Não há lugar onde se ande
sem auxílio
de uma surra
e no calor do empurra-empurra
o biscoito de polvilho
no pacote se desfaz.

6.

As cloacas do comboio
se contraem como nunca.
Um por vez pare a catraca:
o vendilhão de pururuca,
o pastor com sua bíblia,
paletó sujo de graxa…
Meus irmãos, quem é que lucra
com a vossa via sacra?
Arregala-se o olho da cara,
olha a câmera do caixa.
A passagem, quanto custa?
No estômago um soco.
Pois nada mais justo!
Dê-lhes o troco!
Justo o pé que chuta a placa.
Justa a mão que o cesto entorna.
A massa em fúria justamente não se aplaca
enquanto o fogo não arder na plataforma.

Na alta esfera o escândalo é a norma.
O pacote de maldades já transborda?
Dão-lhe o nome de “reforma”.
Todos a bordo!
Pois em breve irá o povo
a bomba esférica do ovo
arremessar em certos homens,
com os garfos desfiar seus finos ternos
de mordomos.
O acerto de contas exige.
A porção última do inferno
lá na ponta da pirâmide encontra
sua origem.

7.

Tudo bem chutar uns cones.
No entanto, eu pergunto.
Quando esse troco
dará nosso povo
na cara do porco
capitalista?
Quando do assunto
tratará com esses homens
infelizes e sinistros?
Quando encontrará o justo soco
a rota certa dos narizes
de prefeitos e ministros?
Bons motivos, temos vários.
De escândalo em escândalo
e vocês neste calvário
são os vândalos, acaso?
Baderneiros, vagabundos, meliantes?
Que panela veio antes
que deixou seus pratos rasos?
Cada noite eles descansam
no macio dos travesseiros,
todo dia se depena mais um ganso
e se abarrota nova mala com dinheiro.
O itinerário da barbárie segue o mesmo.
Mudam só os restaurantes
onde acertam os patrões seus negócios.
O isopor dos ambulantes,
a tortura
do alumínio
que tritura
nossos corpos.
Vocês podem completar o raciocínio?
Um só almoço
de um desses salafrários
quanto custa? Vinte vezes
o valor de seus salários.
Troco justo para esses, qual seria?
Esse desprezado osso
ao pé da mesa de iguarias,
asperezas de sapato
vocês lambem e engraxam.
Que desçam ao nível
das vias de fato
e empurrem dessa laia desprezível
extintores goela abaixo.

(~A~), dezembro 2017 – janeiro 2018

Fotografia: plataforma da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) vista através de hidrante e extintor. São Paulo, (Revoltas de…) junho de 2013.

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com