Quando conheci o Dimitri, ele me presenteou com um fanzine dele: Y kéh con mi intensidark? Passamos três bonitos dias juntos, com uma trupe de maricas. Foi difícil segurar o choro quando elas seguiram viagem e até hoje morro de saudade. Mas como eu tenho uma dificuldade danada de me relacionar à distância e ainda mais em outra língua, na falta de ter o que dizer ao Dimitri (feliz aniversário!), leio e releio seus textos ouvindo The Knife. Decidi traduzir alguns deles, as imagens foram tiradas do fanzine, é isso.

 

dimi 1

Sim, é tu a desculpa que eu uso para conseguir chorar.

Gosto de música dark-sensual. Por isso gostei da música da tua amiga. Por isso escuto The Knife no ônibus a caminho do enterro de vovô.

São bonitos os enterros de verdade, podiam ser sempre assim.

Odeio o mundo em que preciso viver. No mínimo, odeio todo esse solitário tragicirco. Digo, sem você, paixão. Sabe, eu não desmereço os teus esforços, só te digo que tu não faz muita coisa pra sair desses labirintos teóricos. Me saltou uma palavra: miragem Acho que não te contei, mas o vovô foi um dos primeiros homens que eu odiei. Soa violento, né?

É raro admitirem que a violência, em geral, passa imperceptível pelo olho que julga e não abraça. Em geral, eles procuram a marca da besta na massa amorfa da corpo violentada.*

Sim, nossos corpos são violentos. Não se iludam que seremos discretas. Só que a gente se pinta, põe salto 15 e silicone, passa gilete nos pentelhos para nos vermos maravilhosas, não para vocês, miseráveis! Medo-pessoas.

Vocês nos veem subir no ônibus, sair maquiadas dos banheiros e se contorcem, grasnam. Não suportam o desejo alheio e se cagam de temor daquilo que não conhecem.

*Leia-se amorfo como fora de forma, forma como ente regularizado da norma, sendo esta, estado mental corporal causado pela indução à violência.

 

dimi 3

E o que acontece com as relações que construímos entre irmãs? Penso na relação de amantes. Porque essa é uma forma de se amar intensamente entre ratos, para depois nos perdermos de vista. Ou não. Ou [pior]: saber que estamos aqui, montando o mesmo grupo, saber que somos pessoas brilhantes que podiam construir afetos e uma luta diária juntas. Mas escolhemos a distância. Escolhemos errar por aí sem amor. Sem compartilhar esse desejo sem freio e esse medo de explosão.

 

 

 

 

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, bailarina de rave, artista visual, curadora principiante, vidalóki mas nem tanto. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo. Hoje vive em Curitiba (Paraná).