câmbio, aqui é do fim do mundo
rádio pirata bioeletrônica
é aqui que se erguem topetes e pirâmides
aqui é onde a via láctea fica pequena
e se expande na pupila dilatada
colunas da criação desfilando
em meio aos répteis colossais
quando degustamos nossos chás
e tocamos as órbitas planetárias como harpa
e viramos também seu instrumento
a chuva que baba sobre a pele empapada
banhos de folhas, sim
as mais belas aves sobre nossas cabeças
segredos de sementes revelados por nossa mão
plantações e ninhos e pomares
escondidos dos satélites artificiais
banhados pela lua e vênus e avestruz
aqui onde se bebe o sangue jorrando dos matos
e galopam sem cela os trovões nos céus desabitados
engenharia que pariu a anaconda e o dromedário
favelas e aldeias, clústeres de moradas
almanaques de todas as filhas da diáspora
e cópias aprimoradas, hackeragem
revelando tantos sorrisos secretos no duro rosto do um
nunca imitável na doçura dos ossos da mão
riacho leve em nossos rostos
nunca as histórias das viagens oceânicas em canoas submarinas
cada pequeno orixá escondido no seio das avós
sim, a elegância contorcionista das línguas e conceitos
sim, o rosário das dobras do cu pelas línguas
sim, estuário, delta dos presentes que se repetem
até o futuro

Escrito por Tomaz Amorim Izabel

Tomaz Amorim Izabel, 29, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: tomazizabel.blogspot.com. É colunista de crítica cultural na Revista Fórum. Nascido e criado em Poá/SP, nas margens do sonho-monstro Bandeirante, reivindica uma ascendência mineira a se reinventada onde houver ainda mundo.