Madalena

A mulher chora sobre o corpo do filho. Madalena se debruça sobre ela e a embala. Mais um filho que se vai antes da mãe, diz, Será sempre esta a nossa sina? Essa maldição da vida longa demais, dos filhos de vida fina demais? Arminda apenas soluça. Sempre teve medo de perder o filho dessa forma. Quando ele foi ao Haiti, rezou dia e noite até o seu retorno. Soturno, ensimesmado, mas vivo, graças a Deus.

Dizem que Madalena também perdeu um filho, mas antes de ele nascer. Sua barriga estava enorme. Ela não tinha homem. Uns diziam que era filho do vizinho, outros de um namorado que deu no pé ao saber da notícia. Dizem que ela não sabia. O vizinho era gerente em uma loja, e a mulher esperava um filho também. Boa mira, diziam, e riam-se. Um dia, um homem entrou na casa de Madalena. Bateu-lhe tanto que o menino morreu. Madalena não, que já estava acostumada a apanhar porrada. Depois disso, não pôde mais engravidar, diziam.

As novas diretrizes são claras: saem de mãos para cima e sobrevivem ou a polícia entra e os mata ali mesmo. Foi o que soou no alto-falante. Gérson sabe que já estão liquidados de um jeito ou de outro, e quer levar mais gente consigo. Não vou só, não, Zaca, diz para o assaltante que salvou das ameaças de Marcos. Que vacilo, Gérson, diz Zacarias. Gente, posso falar com os policiais para negociar a prisão de vocês, diz João. Não, responde Gérson. Como?, pergunta Dimas, que recebe um olhar de reprovação de Gérson. Eu posso mediar a prisão de vocês, começa, Calma, sei que não é uma situação confortável, mas eu posso ser uma ponte com a imprensa de fora, que pode exigir que vocês sejam tratados com seus devidos direitos legais. Gérson ri. Aqui no Brasil, compadre, há muitos direitos legais, mas nunca vi nenhum, diz. Pode ser uma boa ideia, Gérson, diz Zacarias, Não há outro jeito, melhor tentar que não tentar. Porra!, berra Gérson, Se é pra morrer, a gente vai morrer atirando, não levando porrada num camburão, desarmado. Dimas pondera. Está atrás do balcão, de onde vê o lado de fora do Café. Há muitos policiais lá fora. Há imprensa por todo lado, talvez dê certo.

Dizem que ela contrabandeava do Paraguai para que uma prima vendesse o fruto do contrabando no Saara. Dizem que ela escapava da polícia porque dormia com um sargento que a mantinha coberta. Era a Nega Rica do Saara. Toda semana produto do melhor e barato. Dizem que gastava seu dinheiro todo com meninos que arranjava na rua. Levava-os para casa, dava-lhes banho e alimentava-os. Em troca, seus meninos dormiam com ela. Quando se cansavam, pulavam uma janela, arrombavam uma fechadura, aproveitavam um descuido e metiam a perna no mundo. Ela, embora triste, logo ia às ruas e resgatava outro. Ela dava de tudo para eles, dizem.

Cara, diz Gérson, Só porque tu deu essa ideia de merda, tu vai ser o primeiro a ir pra vala. Aponta a arma para João. Para com isso, Gérson, não piora as coisas, diz Dimas. Cala a porra da boca, Dimas, Tu tá achando que vai se salvar dando uma de bom moço?, pergunta Gérson. A gritaria recomeça. Muita gente chora. De repente, quando Gérson se volta novamente para João, Dimas estoura uma bala em sua nuca, voltando-se imediatamente para Zacarias, que aponta a arma para ele, espantado. Que porra tu fez, Dimas?, berra Zacarias, Tu matou o Gérson, porra!. Gérson cai por cima do corpo de Marcos, derrubando Arminda e Madalena. Zaca, diz lá em casa que eu nunca quis fazer mal a ninguém, diz Dimas, Tu é de menor, sai com as mãos pra cima e bota a culpa na gente. Quê? Maluco, filha da puta… Com um tiro no meio do céu da boca, Dimas desmonta atrás do balcão. A polícia mete o pé na porta alguns segundos depois, encontrando Zacarias ajoelhado, com a arma no chão.

Dizem que Madalena nunca se recuperou do que aconteceu durante aquelas três horas no Café Senzala, no Leblon, n° 1822. Pegou tudo o que tinha em casa, vendeu, juntou com o dinheiro que já tinha e se internou em um asilo no interior, dizem. Nunca mais ninguém a viu, mas sempre há quem diga algo dela. Ainda. Conta-se a história, sabe como é, né?

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).

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