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                          a coisa mais triste

que eu tentei realizar no amor

foi a tentativa de possuir um homem

na superfície dolorosamente rugosa

de um deserto

 

logo eu que atravessei a Grande Água

da china

eu          que guardo no armário

[ para fugas & eventualidades ]

as minhas botinas costuradas

com barbatanas legítimas

 

o fato é que na américa as notícias galopam:

duas novas zonas de radiação inexploradas

e a constatação de um excelente dia

para a formação de anticiclones

na atmosfera espatifada

[ um ano perfeito para desastres ]

 

 

mas é que o nosso romanceziño apocalíptico

deslocou para sempre

meu centro de gravidade

alguns graus para uma latitudelongitude

ligeiramente          acima

da elevação     do nível do mar

“um raro acidente”

eles disseram

causado por pequenos & minúsculos colapsos

 

“na américa” eles disseram

“você pode adquirir uma estrela

a preços módicos”

uma suave bagatela

por um lugar garantido

no cosmos

“você pode nomeá-la”

eles disseram

como fazem algumas pessoas

que amam cavalos

ou       ainda       como    alguns humanos

nomeiam suas crianças

 

“pode-se mover uma cidade

mas não se pode mover um poço”

eles alertaram

— pode-se fingir um desmaio

porém não é possível forjar

uma queda livre:

ou você cai                ou você permanece

não é possível despencar

em                    slow                  motion

 

pode-se amar um homem

      mas não a um deserto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

pode-se mover um planeta a contragosto

mas não se pode mover um poço

Escrito por Rita Isadora Pessoa

Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio de Janeiro, onde reside, e é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), pesquisando o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Tem poemas publicados em diversas revistas como Mallarmargens, Escamandro, Germina e nas antologias A nossos pés, (7letras), organizada por Manoel Ricardo de Lima, e Alto-mar (7letras), organizada por Katia Maciel. Seu primeiro livro de poesia, a vida nos vulcões, foi lançado no final de agosto de 2016, pela Editora Oito e Meio.