o que sabem sobre terras sangradas até não mais a sombra,
não daria para cultivar um cacto sequer

 

e dos nomes abandonados à míngua, às próprias línguas extintas
até à carcaça, daria um sussurro?

 

 

[qual a profundidade do corte
de uma língua?

 

e em que idioma isso
se pode dizer?]

 

 

reexistiremos uma fala
para as feridas que puseram em nossas bocas

 

resistiremos em outras vozes depois de
a grande tempestade enrouquecer os séculos que nos silenciaram

 

não haverá sol onde se esconder

 

e não haverá reza branca em voz alta que suporte
o barulho do mar revolto em nossos pulmões

 

 

 

 

 

Katyuscia Carvalho

Escrito por Katyuscia Carvalho

Nasceu no interior de Pernambuco, com as águas de março de 1977. Licenciou-se em Letras e lecionou intensamente enquanto viveu no Brasil. Emigrou por amor. É feminista e leitora de epistemologias voltadas à descolonização do pensamento. Publicou VERMELHO RUPESTRE, livro de poemas, pela Editora Patuá. É apaixonada pelos tambores do Maracatu de Baque Virado, pelas preacas e pífanos dos Caboclinhos, pela dança e som da chuva, pelo mar e por Lisboa. Hoje, em terras helvéticas, estuda idiomas e escreve porque não sabe cantar. Sonha em ter um poema musicado.