Slevin Aaron
entre o trauma e o drama
entre o trágico e o cômico
nada temo vez em quando tudo
tudo quero mais ou menos quando
rasgo o passo sobre uma vida morna
rasgo o peito sobre um pulsar oco
.
a nada me regro se não fecundo
a tudo me rego senão afundo
afundo no fundo dos silêncios
afundo no fundo dos venenos
.
nenhuma morte me leva
: a não ser marasmos insossos e gélidos
emudeço brisas grito ventos
vivo o não dito dito o que vivo
afogo-me em misteriosos abismos
afoito-me em mistérios abismados
que fogem dos meus precipícios
.
difícil precisar quando preciso
dói muito dói mudo dói mútuo
monstros medos sobras sombras
difícil precisar quando preciso
tudo ousa tudo abusa tudo dissimula
.
nada afronta nada apronta nada apreende
todo o tudo de tanta coisa surpreende
me intriga me instiga me interessa
todas as letras todos os lados todos os lestes
de um só espelho de um só espaço de um só reflexo
de dois corpos compilados num só intrínseco
: dentro de mim comungo flores e espinhos
.
[cultivo acertos sem dizimar erros
que me acrescem].

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.