Esses contos, eu escrevi em 2013 e estavam na seleção de textos que formavam o Barulho do Mormaço. Nas últimas revisões, acabei removendo os dois. Apesar de terem sido excluídos do livro, eu sinto que eles são o alicerce de outras produções posteriores a eles, daí achei importante deixá-los disponíveis por aí.

Beijos

Sobre como eu desapareci

Eu voltava para casa depois de um dia longo o suficiente para que me desse vontade de afundar os pés em uma bacia sem fundo e nunca mais sair de lá. Água, eu queria o silêncio de quem mergulha na piscina e depois do barulho da sua queda, mais nada, só ouve água.

Mas eu ouvia trânsito e a voz do brasil no carro ao lado. Melhor seria se eu fosse água e não tivesse olhos, boca e ouvidos. No carro em que eu estava, só o que fazia ruído eram as palavras da minha cabeça, que se desencontravam numa multidão de pensamentos assombrosos.

Eu queria não ter palavras, nem cabeça, nem carro. Mas eu tinha tudo isso e me pesava como um elefante de chumbo. Elefantedechumbo-cabeçacarropalavrasbarulho. Eu era tudo isso e não queria nada, me sentia parte do mundo errado, de um mundo fumaça, um mundoelefantedechumbo.

A minha casa me tirava do carro e da voz do brasil, e a água da banheira me tirava do ruído sem voz daquelas paredes branco gelo branco gelo, a vendedora disse que essa cor manchava menos e durava mais, além de não doer nos olhos.

Mas a cabeça, nada me livrava das palavras na minha cabeça. Eu era o elefantedechumbo-palavrasdaminhacabeça. Eu queria mesmo dormir, mergulhar e me afogar pelo menos em palavras que não fazem parte dessa vida.

(Água não morre e não nasce, água tem consistência de mistério e esconde um universo que ultrapassa os nossos olhos e mesmo o infinito lá de cima. A água se move pelo mundo, evapora e voa, mas não vive, não vive porque não morre e nem reproduz, e não fala.. água é mais viva que árvore, se água sentisse, certamente sentiria muito mais que uma árvore, basta observar a consistência:

Como já disse, água tem consistência de mistério e

árvores são rígidas, como se já soubessem tudo que o tempo

esse nome que assassinou a eternidade –

lhes trará.

Mas se fosse para viver, mais valia ser uma árvore, a certeza da minha desgraça mais parecia um tronco que um lago. Perderia a cabeça e as palavras, me restaria o silêncio e a rigidez silenciosa do mundo) Eu queria dormir e me esquecer no falso silêncio dos olhos cerrados.

Qual foi minha surpresa quando, ao acordar, não sei se em sonho ou em… sonho, eu era uma árvore que destruíra a cama com a dureza do meu tronco e quebrara todo o chão do quarto com essas raízes que mais parecem cabos de aço. Eu não podia ouvir, mas continuava a pensar e ver, não falava porque não fazia sentido conversar com as paredes já em ruínas. Eu me vi crescer muito e destruir a casa inteira, e me vi sendo uma árvore presa em meus pensamentos que não morriam. Se pudesse teria enlouquecido, mas árvores não enlouquecem.

Confesso que – como não podia enlouquecer – a vida que passei a levar acabou por não me desagradar, eu só queria perder o elefantedechumbo-palavrasdaminhacabeça pois que nem cabeça eu tinha mais.

Algum tempo depois (penso que dias, mas perdi a noção do tempo) uma garota com vestido bordado de sol me surpreendeu ao pular o muro que sobrevivia aos pedaços em meu terreno, escreveu isso em seu caderno e andou com ele em minha direção:

Se tu contares tua história,

poderás esquecer de tudo”

Eu deveria achar aquilo estranho, mas eu era uma árvore que lia sem olhos e pensava, não havia motivos para desacreditar em uma menina com vestido bordado de sol. Ela chegou bem perto, apoiou-se e encostou o ouvido em mim até que comecei a falar isso tudo.

Agora não recordo com clareza o que disse antes, imagino que vagarosamente as palavras desaparecerão e perderei a cabeça de vez, podendo viver a certeza de nunca mais pensar. Vejo que a garota escreve e percebo que as imagens ficam cada vez mais sem foco. Tu, que lês isso agora, saibas da última coisa que penso:

não é minha fala que deu asas e morte às palavras sem fim

mas os sóis

que ardem nos olhos que não tenho –

do vestido dessa menina

queimaram meu sofrimento.

Agora entendo que

O dia em que os olhos de Isabel viram o paraíso

Isabel tinha olhos esbugalhados de quem se assombrou demais quando viu o mundo pela primeira vez. O médico recomendou a sua mãe que a filha passasse mais nove meses de olhos vendados, caso contrário, morreria de espanto.

Quando Isabel viu o mundo pela segunda vez, ainda assim se assombrou muito. Porém os ouvidos, a boca e a pele já estavam acostumados a esse lugar e após alguns dias atormentada na cama com suas visões, decidiu que enfrentaria a vida, mas de cabeça baixa.

Assim como os olhos de Isabel se esbugalharam de assombro ao ver o mundo, o mundo se esbugalhava de assombro ao ver o olhar de Isabel. A menina tinha receio de andar com a cabeça em pé, pois percebia as caras de pavor ao enxergarem aquelas duas petecas escuras e enormes em um rosto tão pequeno.

Não sabia explicar o motivo de ter olhos tão grandes e aquilo lhe inquietava. Muitas vezes era flagrada em frente ao espelho tentando enfiar os dedos entre as pálpebras, como uma pinça. Queria saber a origem de seu tormento, mas nunca conseguia chegar lá. Chegou a pensar que eles eram infinitos, mesmo sabendo do absurdo que era isso, visto que os limites de sua cabeça eram bem claros. Mas podia ser que lá dentro houvesse um universo paralelo, onde a parte invisível de seus olhos se guardava, lugar que Isabel jamais alcançaria. Também pensava que a única alternativa ao nascer fora se assombrar com o mundo, pois que nada daquilo que seus sentidos tocavam fazia sentido. A vida, para Isabel, era um carnaval de absurdos em seus olhos-elefante de vidro.

Como andava sempre com a cabeça voltada para o chão, Isabel não via nada que fosse diferente de calçadas, asfalto, azulejos, grama… talvez por isso tenha conseguido passar tanto tempo sem ter muitos assombros. Mas um dia saiu de casa para comprar farinha de trigo com fermento e no caminho sentiu um vazio muito grande, resolveu erguer a cabeça e quando viu o mundo pela terceira vez, correu para casa e chorou muito. Chorou e nunca mais conseguiu andar de cabeça baixa porque entendeu o motivo de olhos tão grandes: Isabel sentia demais, logo, chorava demais e precisava de olhos enormes para chorar o suficiente. Mas era bonito aquilo, porque tudo que Isabel via representava um mundo de tanto sentimento.

Nascera assim, não tinha remédio. Resolveu contar para sua família a origem de seus olhos escandalosos, que ninguém entendeu. Desde então decidiu conversar e se explicar o mínimo possível, mesmo porque a linguagem era algo secundário na sua visão de mundo, pois que sentia tanto que faltava tempo para dizer. Mas quando Isabel chorava, seus irmãos e seus pais ficavam desesperados com o aguaceiro e exigiam explicações. Isabel resolveu chorar escondida.

Às vezes, não aguentava e enfiava um livro muito grande na cara e lagrimava baixinho, levantaria a saia, mas não mostrava os olhos. Às vezes, quando queria chorar muito alto, se trancava no banheiro, mas chorava tanto que acabavam ouvindo os gemidos e a água a jorrar, perguntavam o porquê. Inventava um motivo qualquer pelo qual nunca choraria e recebia um conselho que fazia curva na entrada do ouvido. Amanhecia doente e ficava em casa, sozinha, para poder desadoecer e desaguar em paz.

Isabel entendia seus olhos esbugalhados, mas a angústia de ser um monstrinho na família não passava.

Certo dia, em que Isabel amanheceu lacrimosamente doente, após chorar rios de assombro, dormiu e sonhou, mas não era um sonho qualquer:

Viu o paraíso

Acordou assustada e passou o dia todo sentada em frente ao espelho, com os olhos ainda mais esbugalhados e úmidos, sem dizer uma palavra. Sorrindo.

Anoiteceu e Isabel enfiou as mãos em seus olhos, percebeu que tinham fim. Tirou-os dali sem dor, sem esforço. Cerrou a pálpebras, pegou um copo d’água e bebeu-o junto com as duas petecas escuras e enormes.

Continuou lá, sentada, até o dia de sua morte (que ainda não chegou), entregue ao desconhecido.

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, bailarina de rave, artista visual, curadora principiante. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo. Hoje vive em Curitiba (Paraná).