ESSES FILHOS DE UMA LOBA

(André Nogueira)


Dirigi à arquibancada
meu rugido incompreendido
para os filhos de uma loba.
Ao chegar em seus ouvidos
o clamor da minha boca,
eles saíram –
os patrícios, os plebeus,
de seus liceus, de seus hospícios
ou detrás de uma fontana.
E lotando o coliseu
para escutar a minha ira,
nem sequer a pulga coube
atrás de orelhas em abano.
Já o respeitável público
em júbilo ovaciona
o cesáreo adestrador:
“Eeeu…
sou romaaano…
com muito orguuulho…
e muito amoooor…”

Quanto a mim, fui das savanas
um temido caçador.
Da minha África querida
me trouxeram acorrentado
e para mim mais dolorido
do que grades e grilhões
é lembrar como esse roubo
me custou a minha juba.
Esses filhos de uma loba!
E outra vez o meu rugido,
glória última, ecoou:
“Se arrebendo estas argolas
na arquibancada subo,
estraçalho o domador,
mijo na porta do Senado
e de Roma tomo o trono.
E no correr dos trinta anos
de meu régio de tirano
terá tempo de crescer a minha juba”.
E responderam-me os romanos:
“Vai pra Cuba!”

Nero, o imperador, fez um aceno
ordenando que soltassem na arena
a fera e o gladiador.
Ouvi rugir meus camaradas
leões de cabeça raspada,
a lamentar no calabouço
a agravada minha pena
pela hiena engravatada.
Eu clamava por socorro
mas o povo com os punhos
agitava por, supunha-se, um osso.
Implorei também a Deus
que retirasse minha alcunha
de Senhor dos animais.
Mas inflamavam-se os ânimos
e unânime ecoava o coliseu:
“Todo poder a Barrabás!”

Pensei num novo plano:
amolecer os corações
e desarmar o rei romano
com uma revolução da paz…
Deitei-me de barriga para cima
como um dócil felino
e levantei a minha pata
oferecendo-me aos demais.
O gladiador parou estupefato,
a multidão guardou silêncio
e Nero desmaiou como uma menina
nos braços de seus serviçais.
Ergueu-se o portão de uma garagem
e de lá saiu à toda
um andar da carruagem
em desgovernado consenso
guinando para a direita.
O gladiador bateu com o globo
incrustado de espetos,
e esses filhos de uma loba
enfim gozaram satisfeitos
mamando nas mesmas tetas,
tudo do mesmo jeito,
mas eu levo para sempre
um golpe de globo no peito.

Maio 2016

 

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com