Cinza. A cor nos seus olhos: uma paleta de cores acinzentadas. Cinza médio, cinza claro, cinza escuro, cinza-urano… Dizia ver o mundo gris matizado pelo seu estado de espírito.

O dia irmanava-se com ele, sem sol, sem céu, sem calor. Sem. Nesses dias sua alegria descontente era cinza claro.

A fome revirava-lhe as vísceras, sem água, sem comida. Sem. Nessas horas seu desejo era cinza escuro.

A madrugada escavava, pá a pá, as dores, os nós, o buraco na existência. Nesses momentos sua presença era cinza-urano.

Aprendeu a vestir-se de cinza e tudo nele acostumou-se àquela cor. As retinas, enquadradas, esqueceram as cores um dia conhecidas.

Uma vez, o dia e a noite chocaram-se num crepúsculo cinzento que invadiu a cidade fria. Naquele momento tudo era cor e cheiro de cinzas. Ele vagava pela rua vazia.

O vento assobiava com gravidade. A ventania, em rodopio, dançava. Um veloz bailado arrancava as vestes do homem descolor, rasgava todos os tempos, consumia as dores, os nós. A tempestade consumia o instante. Certeiro, um clarão branco cortou os ares. Uma fagulha iluminou-lhe as retinas.

Chovia transparente sobre a paisagem, sobre seus olhos. O minuano espalhava as últimas cinzas.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.