A CARNE E O FUMO

a fumaça no cigarro da tua alma
não é química turva de apreensão
é a vida que esvai em teus poros
a cada trago de alegria ou solidão

não é preciso absorver a nicotina
pra sentir que somos feito o fumo
pois, antes de dissipar, emanamos
por veredas incertas e sem rumo
a combustão dos nossos sonhos

qual camundongo no trilho do trem
chamando de eterno o passageiro
somos sêmen no útero do efêmero

por isso, amo os que são loucos:
se não for pra entrar em chamas
restará ir apagando aos poucos

Gabriel Cortilho, do livro “O Poema Entre As Ruínas” (2017)

Escrito por Gabriel Cortilho

Gabriel Cortilho (1992- ) é poeta e professor de História em Araraquara, no interior de São Paulo. Possui como referência a poesia de Manoel de Barros e Fernando Pessoa. Tem poemas divulgados pelas revistas Carlos Zemek; Mallarmargens; O Poema do Poeta; Escrita 47 (Guatá- Cultura em Movimento). Organiza seus escritos em livretos, sendo eles: Atemporal/Cronológico (2014), Transitório (2015), A Transa dos Besouros Verdes (2016), O Poema e a Cachaça (2017) e Javali Radioativo (2017), A Carne e o Licor de Moscas (2017), Os Fios Esquecidos Pelos Olhos (2017) e O Poema Entre as Ruínas (2018).