1

depois pouso os olhos no inferno, antes passeio sobre os cacos da ampola que espatifou-se em meu dentro. como rascante dilacerar prazenteiro quase que a polir a agulhada com esmero.até que tudo se translade em fino gozo e espatife sobre os pés e o assoalho, antes mesmo que chegue a sombra e seu criativo: um dragão em atos vem anunciar o yang -que descarta o pedestal numa altivez sublime : um oráculo em mãos

vê que tudo tende ao corte seco / desentreabre-desnasce : a ampola que saiu-me como um filho desfeito / o dia escorregou-se pelo leito, o lençol testemunha o fluído, a chuva renasce nos boeiros

bocarras pras entranhas frias fustigadas hoje porque sai-me como um filho a chuva e num uivo hécate baila-se nos véus daquele breu nascente de meus calcanhares ali, como mãe terrível, a grande cabeçorra de cão a brilhar em caninos que como lâminas e que prateiam numa luz difusa, que descreve névoas transladadas pelo impressionismo do que torrencial, tudo recobre por esse, no ouvido a calmaria dum contínuo gotejar ferrenho, o uivo de novo, e estia

range a avenida afora, tudo no ar parece denso parece espiralar-se pro contínuo duma respiração pesada e abater-se sobre as cinzas do cigarro, o peito como pausa e pulsa besta bestial, um felino me passeia pelas nádegas, pelos olhos e avança sobre hécate e a devora, então lambe confortavelmente as patas e curva a espinha em direção ao norte, ao lado. ele vira as páginas do livro, diante de mim os restos de hécate e o gato, o gato pousa em meu colo e ordenha minhas vestes com as patas enquanto com os dentes macera em com os lábios saliva, vejo entre os restos carmim o ventre de hécate bestial como o peito, pulsa .

Pudera domar o impulso que epilético domina fios luzidios, esse vento que me desabre, não poderia dizer o que sinto diante do esparmorte desse vento que paira, que apasigua e que outra vez arrebata os fios, penso que neles é que surge a memória, o útero de hécate adquire núvens de mínimas moscas que se bailam no ar em espiral a memória emerge da caixa craniana e imagino os fios a enrroscarem-se nos neurônios, que se ligam, que transladam a tez

não poderia dizer o que de fato ocorre, esparmorte que me nasce dos cabelos e dos ventos, um daemon que me governa os ossos, mas faz noites eu não o sinto, meu corpo transborda em pus o que é negrume, os dentes na boca são expurgos da gengiva, contraem e são expelidos, eu cravo as unhas pra ter como sumo o pus, eu cuspo os dentes sobre a mesa não tão branca, ele lê, ele vira as páginas num contínuo no canto do cômodo, fisgados estamos nós nas vidas paralelas que já não tão, transpostas entre si, fazem de si o enlace de paralelas

o que há em nós?

O último coito ecoa em meu corpo : mal movimento as entranhas arredias ao teu membro que me vem como faca nos tempos atuais – meu útero desértico filia-se ao útero putrefato de hécate que começa a renascer no que o felino rola pedras negras para dentro do que lhe era corpo e lhe lambe os rebocos do que lhe era corpo e lhe empurra pra dentro do corpo o útero gasto enquanto abana as moscas com a cauda, restará ainda por dias hécate tombada até que faça efeito o renascer de si, ela estará então em um estado anterior ao da vida, que converge ao posterior à morte, ela estará no momento em que o não viver é o difuso e toma corpo em seus pelos negros como umbra, ela será a umbra inicial e restaurada e renascida será ainda marcada pelas mortes que não são uma, mas várias e que dado esse momento nunca cessarão de suceder .

2

ele dorme, ele ressona e logo torna a rugir no sonho, ele sonha uma bocarra flamejante que lhe adere os dedos e tenta virar as páginas no que os dedos tornam também fogos e queimam a folha

os ditos queimam e ele sente como se lhe fosse a própria carne

conquanto a carne própria queima e ele mira o fogo indolor lambendo-lhe

a bocarra saliva chamas e cospe brasas no solo : sai-lhe ao invés do pigarro um visgo de fuligem e fumaça negra que a tudo adere, espeça e gordurosa a fumaça que atêm-se a ele. os livros estão em chamas e por eles as ideias esvaem-se em nuvens grossas espiraladas

hécate observa impassível, depois inicia uma série de murmúrios tesos como pregação que faz de si às pedras que lhe são entranhas, estranha a carne ainda massacrada  parece abrir-se pelos poros para as chamas que lhe são doces qual orvalho matutino e o gris que plana no ar e que deslisa por sobre os poros lhe revigora, no murmúrio hécate entoa “esplêndidos dons, ter parte na terra e no mar infecundo”  e ali as feridas que ainda lhe restaram do ataque do felino esmorecem e a pele torna-se límpida, impera a luz da lua nova na pele resplandescente, restaurada pelo gris que plana, que emana da chama : ele dorme e o sonho invade a vida e está imerso em labaredas, ele acorda abruptamente e chamas lhe parecem despertar imenso prazer no que se contorce em uivos prolongados e bufa como que ao orgasmo, ele abre um livro e pode ver as palavras sumirem na luz ferrenha e pode ler “remora em latim é demora” ele observa a carne, está intacta posto que luminescente, se sente pronto, se lembra de suas incumbências, desperta outro, a deusa sorri e afora os cães e a lua nova corroboram para sua plenitude