corações e açougues

O CORAÇÃO COXINHA

(André Nogueira)

……….> “Os autores da maior chacina da história de São Paulo, ocorrida no último dia 13 em Osasco, procuravam vítimas com antecedentes criminais e estariam usando coturnos. Seis das 23 vítimas tinham passagem pela polícia. No entanto, para o Secretário de Segurança Pública, perguntar sobre o passado criminal e usar coturno é ‘típico de quem quer fingir que é policial’”;

Recorte de notícia de jornal, 15 de agosto 2015.

……….> “Nesta terça-feira (25) uma carreta, que carregava porcos para o frigorífico, tombou na região de Osasco. A confusão foi grande durante toda a manhã. O motorista não se feriu. Os 110 porcos continuaram na carroceria do caminhão tombado. Primeiro a concessionária, que administra a rodovia, usou dois guinchos para tentar erguer o caminhão. Depois, veio um terceiro guincho, depois uma retroescavadeira, que conseguiu levantar um pouquinho. Na segunda tentativa parecia que ia dar certo, mas de novo não deu, e a carroceria tombou outra vez. Tudo isso com os porcos dentro. Só mais de seis horas depois do acidente é que a concessionária conseguiu um caminhão e aí a ideia foi tirar os animais que estavam na carreta tombada e colocar em outro veículo. A carroceria foi coberta com uma lona. Os Bombeiros foram chamados para ajudar e cortaram as grades da carroceria. Um grupo de ativistas de defesa dos animais foi ao local. Eles gravaram imagens e ficaram chocados. ‘Tentaram erguer a carreta com os animais ainda vivos e agonizando. Muitos ficaram esmagados embaixo das ferragens’”;

Recorte de notícia de jornal, 25 de agosto 2015.

1.

“Me vê uma coxinha”,
foram suas palavras finais.
Nem deu tempo de ele responder se tinha
ou não
antecedentes criminais.
A despedida de um outro foi:
“Me passa o catchup?”
Carne de boi?
Mal-passada, por favor.
“Chupa!
É timão nessa porra!”
(2 a 1 no tricolor).
Então entraram os agentes.
Sobre isso o que se pensa?
Que disseram: “Minha gente,
me desculpe, com licença,
alguém que tenha antecedentes?”
E quem sabe assim ocorra
com quem guarde em sua manga
uns bons mangos
que empregar em seu socorro?
Nos peitos ralados de frango
os corações aceleraram, de repente.
Entrou atirando a polícia.
E escorreu no chão do bar
o catchup,
o sangue de boi
e o sangue
de gente,
e tal foi o chute
que ainda rangem pela noite
as doloridas dobradiças.

2.

Enxurrada sangüínea.
Escorre suave, dobrando a esquina.
O impávido colosso
e pelo osso o ímpio ávido
o pescoço a degolar
como se corta um “baby-bife”.
Um tiro no peito, de rifle.
A esta carne de segunda e cor suspeita
não revestem moda e grife…
É necessário antecedente criminal?
entro do cérebro caipira
de um tira
que se acha algum xerife –
está montado o tribunal.
E quem sabe? Se ele atira,
é porque sentenciou
o solitário neurônio.
Comoveram-se os estômagos
acostumados ao açougue?
Espantaram-se os humanos
de manhã que se enfileiram
nas esteiras dos autômatos?
Alguns que à noite inteira
enlouquecem os bafômetros?
O rodo a passar
o dono do bar
não sente à tona vir o vômito.
Alguém num canto da cidade engole o choro –
numa cela
da cadeia,
sob os toldos
destas ruas…
Indecisos estão todos
entre as opções duas:
dar o peito ao matadouro?
ou desfazer do próprio couro
os cadarços destas veias
e deixar que a coisa flua…
Este sangue
de boi, este vinho
chapinha, a carne de frango
entranhada nas coxinhas,
as palavras derradeiras
e últimos sopros
de vida.
Esta sopa
no balcão das prateleiras,
bruto jorro das feridas.
Pois enquanto lucro líquido render
irá do sangue o suco rico
borbotar e escorrer
dos corações aos bueiros
e garrafas de bebida.

3.

Começou o bangue-bangue.
Com certeza que não é um faroeste
em direção de Tarantino.
Mas ao ver todo esse sangue,
comentando na internet,
alguns estão se divertindo.
Isso é pouco
para o gosto popular
pelas sessões de extermínio:
treze homens em um bar,
nalguma esquina de Osasco,
como carnes de churrasco,
embrulhados no alumínio.
Querem mais do que sessões de cinema.
A vontade das urnas
tem tesão pelos coturnos
do Datena!
Se a culpa
é sua ou minha,
o meritíssimo interroga?
Esse mesmo catchup
a manchar o colarinho,
o babador de vossa toga!
De terror esse roteiro:
o ministro do supremo,
dos vampiros o mais torpe.
Mas, dos gêneros que temos
nesta pátria da coxinha,
o que dá maior ibope?
Disparo de tiros
e fuga a galope…
O velho oeste brasileiro
sob esporas escoicinha
de um capitão do BOPE.

4.

Sou mesmo um cara de sorte
por ter a ficha limpa:
eis que a morte não me veio
como simples par-ou-ímpar.
Mas por nunca ter perdido minha calma
sinto às vezes uma súbita vergonha,
ouvindo Mozart no meu apartamento
enquanto há tímpanos aí que se arrebentam
sob golpes de coronha.
Por um triz não me arrependo
de não dar ouvido ao ódio,
de viver pacificando a bomba-relógio
que implode meu humor habitual.
Mas faz tremer a minha alma essa paúra
de um carma acumular
e despertar nalgum futuro
bem pior que o atual.
Chegando lá
os anjos vão
me perguntar
se tenho
ou não
antecedente criminal.
Também não é uma opção
meu breve tempo eu encurtar
e contra a têmpora voltar
essa faísca de indignação.
Porque se fujo
vai que os anjos me perguntam
se está suja
minha ficha
com o sangue
que esguicha
de meu próprio coração…
Até o fim postergarei!
Se oferecer a outra face –
é minha lei,
cortar o gume de uma faca
só legumes e alfaces, –
o meu mote.
Mas dizer que sou da paz é muito fácil,
se não moro lá no morro
onde às luzes das rajadas
com capuzes os fardados
caçam gente como esporte.
Não reparem que escorra
sangue em jorros aos bueiros:
nas cozinhas este esguicho
suja toda e cada ficha
de um por um dos brasileiros!
Holofote que ilumina
um outdoor de fast-food,
o fino corte de uma faca tramontina
e os pedaços de humana negritude.
Vasculhemos bem as sobras,
papelão não vai ao lixo:
ovelhas que mordem e balem
as velhas palavras de ordem,
entram massa de manobra
saem massa de salsicha.
Do sagrado
tabernáculo
à taberna
de Osasco,
olhai, Senhor, vosso rebanho!
Recheados
de bala
e embalados
a vácuo,
como nacos
de picanha.
A tudo mói
a engrenagem do assassínio
que automático recorta
um coração apaixonado.
E vão atrás office-boys,
entregando nas portas
de seus condomínios
fechados.

Agosto 2015

Imagem: Sobre corações e açougues (2011)

 

 

 

 

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com