corações e açougues

O CORAÇÃO COXINHA

(André Nogueira)

………… “Ao final, uma revelação: ‘Na realidade, não houve coxinha. Isso não existiu, simplesmente tomou forma, corpo. Ela falou isso por medo de ser torturada. Não houve produção de salgados com carne humana’, garantiu. Quando perguntado sobre o golpe na jugular que costumava dar nas vítimas com uma faca, o acusado respondeu: ‘Segundo a Bíblia, não devemos usar o sangue, pois o sangue não é puro’, justificou, acrescentando que a carne humana tem sabor de carne bovina”………… Recorte de notícia de jornal, 13 de setembro 2014.

…………“Testemunhas relatam que, antes de atirar, os criminosos teriam questionado sobre quem tinha passagem policial. O secretário de Segurança Pública disse que perguntar sobre o passado criminal e usar coturno é ‘típico de quem quer fingir que é policial’”……… Recorte de notícia de jornal, 14 de agosto 2015.

1.

“Me vê uma coxinha”,
foram suas palavras finais.
Nem deu tempo de ele responder se tinha
ou não
antecedentes criminais.
A despedida de um outro foi:
“Me passa o catchup?”
Carne de boi?
Mal-passada, por favor.
“Chupa!
É timão nessa porra!”
(2 a 1 no tricolor).
Então entraram os agentes.
Sobre isso o que se pensa?
Que disseram: “Minha gente,
me desculpe, com licença,
alguém que tenha antecedentes?”
E quem sabe assim ocorra
com quem guarde em sua manga
uns tantos mangos
que empregar em seu socorro?
Nos peitos ralados de frango
os corações aceleraram, de repente.
Entrou atirando a polícia.
E escorreu no chão do bar
o catchup,
o sangue de boi
e o sangue
de gente,
e tal foi o chute
que ainda rangem pela noite
as doloridas dobradiças.

2.

Enxurrada sangüínea.
Escorre suave,
dobrando a esquina.
O impávido colosso
e pelo osso o ímpio ávido
atirando-se ao pescoço
como corta um “baby-bife”.
Sobre o peito do mulato –
a chibata? – o implacável
de um rifle.
A esta carne de segunda e cor suspeita
não revestem moda e grife…
É necessário antecedente criminal?
Dentro do cérebro caipira
de um tira
que se acha algum xerife –
está montado o tribunal.
E quem sabe? Se ele atira,
é porque sentenciou
o solitário neurônio.
Comoveram-se os estômagos
acostumados ao açougue?
Espantaram-se os humanos
de manhã que se enfileiram
nas esteiras
dos autômatos?
Alguns que à noite inteira
enlouquecem os bafômetros?
O rodo a passar
o dono do bar
não sente à tona vir o vômito.
Alguém num canto da cidade engole o choro –
numa cela
da cadeia,
sob os toldos
destas ruas…
Indecisos estão todos
entre as opções duas:
dar o peito ao matadouro?
ou desfazer do próprio couro
os cadarços destas veias
e deixar que a coisa flua…
Este sangue
de tinto chapinha,
a carne de frango
que se entranha nas coxinhas,
as palavras derradeiras
e últimos sopros
de vida.
Esta sopa
no balcão das prateleiras,
bruto jorro das feridas.
Pois enquanto lucro líquido render
irá do sangue o suco rico
borbotar e escorrer
dos corações aos bueiros
e garrafas de bebida.

3.

Começou o bangue-bangue.
Com certeza que não é um faroeste
em direção de Tarantino.
Mas ao ver todo esse sangue,
comentando na internet,
alguns estão se divertindo.
Isso é pouco
para o gosto popular
pelas sessões de extermínio:
treze homens em um bar,
nalguma esquina de Osasco,
como carnes de churrasco,
embrulhados o alumínio.
Querem mais do que sessões de cinema.
A vontade das urnas
tem tesão pelos coturnos
do Datena!
Se a culpa
é sua ou minha,
o meritíssimo interroga?
Esse mesmo catchup
a manchar o colarinho,
o babador de vossa toga!
De terror este roteiro:
o ministro do supremo,
dos vampiros
o mais torpe.
Mas, dos gêneros que temos
nesta pátria da coxinha,
o que dá maior ibope?
Disparo de tiros
e fuga a galope…
O velho oeste brasileiro
sob esporas escoicinha
de um capitão do BOPE.

4.

Sou mesmo um cara de sorte
por ter a ficha limpa:
não quis Deus me dar a morte
como simples par-ou-ímpar.
Mas por nunca ter perdido minha calma
sinto às vezes uma súbita vergonha,
ouvindo Mozart no meu apartamento
enquanto há tímpanos aí que se arrebentam
sob golpes de coronha.
Por um triz não me arrependo
de não dar ouvido ao ódio,
de viver pacificando a bomba-relógio
que implode meu humor habitual.
Não tenho fetiche por arma
nem consigo me livrar dessa paúra
de acumular um karma
e despertar nalgum futuro
bem pior que o atual.
Chegando lá
os anjos vão
me perguntar
se tenho
ou não
antecedente criminal.
Também não é uma opção
meu breve tempo eu encurtar
e contra a têmpora voltar
essa faísca de indignação.
Porque se fujo
vai que os anjos me perguntam
se está suja
minha ficha
com o sangue
que esguicha
de meu próprio coração…
Até o fim postergarei!
Se oferecer a outra face –
é minha lei,
cortar o gume de uma faca
só legumes e alfaces, –
o meu mote.
Mas dizer que sou da paz é muito fácil,
se não moro lá no morro
onde às luzes das rajadas
com capuzes os fardados
caçam gente como esporte.
Não reparem que escorra
o sangue em jorros aos bueiros:
nas cozinhas este esguicho
suja toda e cada ficha
de um por um dos brasileiros.
Holofote que ilumina
um outdoor de fast-food,
o fino corte de uma faca tramontina
e os pedaços de humana negritude.
Do sagrado
tabernáculo
à taberna
de Osasco,
o que virou vosso rebanho?
Recheados
de bala
e embalados
a vácuo,
nacos de picanha.
Vasculhemos bem as sobras,
papelão não vai ao lixo:
ovelhas que mordem e balem
as velhas palavras de ordem,
entram massa de manobra
saem massa de salsicha.
A tudo mói
o moedor universal.
E vão atrás office-boys,
apocalípticos heróis
deste sistema que constrói
um assassino serial.

Agosto 2015

(Revisado em jan. 2018)

Post-scriptum:

……………..“Sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Tinha era que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”…………. Esta frase, publicada nos jornais, saiu da boca de certo secretário de governo, Jan. 2017.

Fotografia: André Nogueira, “Sobre Corações e Açougues” (2012)

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com