Aleksesss
Tu, que não digo o nome que devota o caos, degrada a dádiva [eu te gosto justamente pelos teus dramas, vírgulas e rasgar de páginas. Tu, que não digo o nome que consagra teus cálices sem sangrar teus cortes [eu te gosto justamente pelas tuas lágrimas, mágoas e dores heroicas. Tu, que não digo o nome que brinda com o fogo a sede do vício [eu te gosto justamente pelos teus erros, ciladas e glórias vadias. Tu, que não digo o nome que altivo me remata os passos : que atroz de si me atenta à minha própria alma [eu te gosto justamente pela tua casca, carne e essência miserável : eu te gosto justamente pela tua destreza em esgarçar meus tênues escudos.
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Depois sorri, encantado, diante da beleza nua dos meus ossos. Porque veladas talvez existam muitas relutâncias em caminhar na direção das minhas próprias ausências. Porque veladas talvez existam muitas renitências em caminhar na direção dos meus próprios abismos. Tu, que não digo o nome quando ligo os pontos, encaixo as peças, eu me surpreendo comigo quando contigo me visto: eu me surpreendo comigo quando percebo o quanto contigo sou inteiro : o quanto sem ti sou metade ignorada de mim mesmo. Pela óptica leve dos teus reflexos conjugo os perdões de mim, quando em ti desembaraço os nós do estômago. Pela óptica leve dos teus reflexos conjugo as admissões de mim, quando em ti desintoxico as retinas do peito. Pela óptica leve dos teus reflexos conjugo as firmações de mim, quando em ti desboto as nódoas intrínsecas. Eu que tanto me perdi em sãs desilusões ideais de mim, aprendi a amaciar um bocadinho as durezas do mundo quando passei a me enxergar pelas lentes dos outros.
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Depois de tanta existência sem sentido soube troca como bússola e olhar como mapa. Um olhar cuidadoso é o olhar que quase nunca enxerga os sentimentos. Um olhar cuidadoso é o olhar que quase nunca enxerga as sensibilidades. Um olhar cuidadoso é o olhar que quase nunca nos sabe leves. Um olhar cuidadoso é o olhar que quase nunca nos sabe ternos. Um olhar cuidadoso é o olhar que quase nunca nos sabe amor. Depois de tanta existência sem sentido soube empatia como estrada dos encontros de mim dentro do outro. E o melhor deste encontro não é a ideia dos abraços beijarem a intimidade do espírito. O melhor deste encontro é a sutileza dele. A mística dele. A poesia. O segredo de literalmente aproximar meu coração dos meus fantasmas interiores para conversarem no silêncio que dá descanso à palavra.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.