Novos tempos têm ampliado a literatura feita por mulheres, não apenas de escritoras vindas de editoras tradicionais, mas também de casas independentes. Essas editoras têm crescido em todo o mundo porque possibilita a descoberta de novas vozes da literatura contemporânea. O movimento #readwomen também encorajou mulheres a escreverem mais. Nesta perspectiva, a professora Thais Vitale entrevista a poeta brasileira Fernanda Fatureto sobre literatura, visibilidade e gênero para que diálogos sejam possíveis e abram espaço para a criação literária.

1)Thais Vitale: No livro Um teto todo seu, Virginia Woolf afirma que, para escrever ficção, uma mulher precisa de “quinhentas libras por ano e um teto todo seu”, isto é, precisa ter acesso a condições favoráveis que permitam independência financeira e um lugar adequado para trabalhar a escrita. Hoje, é possível afirmar que as mulheres conquistaram esses pré-requisitos? Na sua trajetória, como foi o processo de conciliar as atividades do dia a dia e a escrita?

Fernanda Fatureto: Muito mudou desde que Virginia Woolf escreveu Um teto todo seu, em 1928. A grande mudança, na minha opinião, foi a Internet que ajudou na divulgação de novas vozes da literatura. As redes sociais também disputam o espaço antes ocupado pela mídia tradicional na cobertura de literatura, que invariavelmente privilegiava o cânone. Mas ainda há muito o que ser conquistado pelas mulheres. No meu caso, venho do jornalismo, ou seja, desde sempre lidei com a escrita na minha rotina – o que facilitou meu trabalho na ficção. A escrita está impregnada no meu dia a dia, assim como a leitura. Então não vejo dificuldade em escrever poesia aliada à rotina. E creio que todo o movimento do #readwomen ao redor do mundo encorajou as mulheres a buscar um espaço na ficção, antes predominado pelos homens. No Brasil, em particular, creio que o maior desafio é o público e o mercado enxergarem a escrita como uma profissão. Ainda se tem a ideia de que escrever é um hobby, um privilégio para poucos. Encarar a escrita de maneira mais profissional e dar espaço a novas escritoras são o maior desafio no país.

2)Thais Vitale: Na escola, geralmente o ensino de literatura ocorre de forma cronológica. Ao longo dos anos, os alunos estudam os movimentos literários e entram em contato, sobretudo, com o cânone português e brasileiro. Considerando as experiências de leitora na época escolar e sua atuação hoje, como escritora, quais são os impactos desse modo de ensino para a formação de uma pessoa? Quais autoras e autores que não pertencem ao cânone foram essenciais como referência para a sua produção literária?

Fernanda Fatureto: Não há como negar que o ensino na escola e na faculdade influenciaram as minhas primeiras pesquisas e leituras. Meu primeiro contato com os movimentos literários e literatura foi na escola. Poetas como João Cabral de Melo Neto, Cecília Meirelles, escritores como Machado de Assis e Milan Kundera me proporcionaram os primeiros contatos com a ficção, isso quando eu era bem nova. Na faculdade de jornalismo, pude me aproximar de Clarice Lispector, Beckett, Kafka entre vários escritores. Mas o que contou, no meu caso, foi minha curiosidade extra-classe. Fui tomando contanto com autores que, mais tarde, me deram a certeza de que a literatura seria central em minha vida: Mariana Ianelli, a portuguesa Maria Gabriela Llansol, Marguerite Duras, Sylvia Plath, Armando Freitas Filho, Julio Cortázar, Paul Celan, Virginia Woolf. Estes escritores são o núcleo central das minhas referências. Mas na verdade leio toda escrita que me toca, independente se a autora ou autor é consagrado ou não.

3)Thais Vitale: A desigualdade de gênero fez com que, por séculos, os homens fossem os principais representantes da literatura. Como consequência, no Brasil, por exemplo, poucas escritoras são apresentadas aos alunos pelos livros didáticos (Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles e Raquel de Queiroz costumam ser as autoras estudadas). Como mudar essa situação hoje a fim de tornar o ensino mais plural para os estudantes do Ensino Médio (adolescentes de 15 a 17 anos)?

Fernanda Fatureto: Acredito que o verdadeiro caminho para ampliar o leque de escritores no ensino fundamental ou no bacharelado seja a pesquisa e o interesse genuíno pela literatura (que é muito mais do que apenas estudar o cânone). A pesquisa da linguagem nos leva a caminhos imprevistos e traz surpresas. Quem tem interesse genuíno pela poesia e ficção acaba descobrindo novas autores e autores que não estão presentes na mídia. Para que isso aconteça, é preciso abertura e curiosidade pelo novo, além de se despojar de preconceitos muito latentes, como “só leio aquilo que a mídia me apresenta como bom”. Um dos caminhos também é pesquisar autoras e autores de editoras independentes – vejo um crescimento dessas editoras de maneira global. Geralmente, elas estão preocupadas com a qualidade literária mais do que se aquele autor vende muito ou não.

4)Thais Vitale: Para o estudo dos adolescentes ser rico e interessante, sabemos que a formação do professor deve contemplar a leitura e análise de livros de mulheres e homens que escrevem em diferentes gêneros literários. A graduação em Letras, porém, não costuma abordar a produção feita após os anos 60, salvo algumas exceções. Na sua opinião, o que impede a academia de discutir as obras contemporâneas e os livros que não se enquadram no cânone, como os produzidos por Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, escritoras negras que nasceram na periferia?

Fernanda Fatureto: Não tenho muita propriedade em opinar sobre a academia. Mas creio que esta situação tem mudado. Deve haver muitas teses de mestrado e doutorado sobre Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus. O problema talvez esteja na visibilidade desses estudos. Porém, sou otimista quanto ao cenário. Acredito que Carolina e Conceição têm sido cada vez mais lidas. Um dos movimentos mais importantes que temos no Brasil é o novo formato da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, que em 2017 homenageou Lima Barreto – escritor negro e marginalizado. A nova curadora, Joselia Aguiar, conseguiu o feito de levar mais negros e autores independentes para as mesas principais. Se vermos as entrelinhas, a mudança tem ocorrido.

5)Thais Vitale: Ainda que a desigualdade de gênero no meio literário esteja em pauta na atualidade, os prêmios literários ainda não contemplam, proporcionalmente, obras de homens e mulheres. Ao longo de sua carreira, você percebe que o gênero de quem escreve literatura influencia a avaliação da banca julgadora? Em algum evento literário, você já sofreu preconceito relacionado a gênero?

Fernanda Fatureto: De fato há essa disparidade. Percebo pelas listas de prêmios um descompasso entre escritores e escritoras. Mas minha trajetória na literatura ainda é muito recente e mesmo assim não sofri nenhum preconceito de gênero. As pessoas têm sido generosas e receptivas ao meu trabalho, tanto da parte de mulheres como homens. Talvez porque venho de editoras independentes. Não sei lhe falar sobre o mercado geral.

6)Thais Vitale: Alguns sites e revistas costumam usar o termo literatura feminina ao fazer referência a livros escritos por mulheres. Como você vê esse rótulo?

Fernanda Fatureto: Não gosto deste termo. Uso sempre “literatura feita por mulheres”. O termo ‘feminino’ é uma construção cultural carregada de estereótipos de gênero, como ‘delicado’, ‘sentimental’ etc. Mas consigo identificar na escrita feita por mulheres conceitos e linguagem que o homem não alcança. Peguemos o exemplo de Elena Ferrante e Clarice Lispector. Você imaginaria um homem escrevendo como estas duas autoras? Claro que não. Há algo em suas escrituras que advém do universo das mulheres, uma densidade própria. Mas ainda sim, elas não escrevem “literatura feminina”. São escritas cuja temática ultrapassa esse conceito. Elas lidam com a morte, o abismo, a dor – portanto é literatura universal, mas que contém o particular que é a escrita da mulher. Este é um tema complexo.

7)Thais Vitale: Considerando que boa parte dos alunos do Ensino Médio tem acesso somente à leitura ficcional recomendada pela escola, na sua visão, é importante apresentar quais escritoras pertencentes ao cânone e à literatura contemporânea para enriquecer a bagagem cultural desses jovens?

Fernanda Fatureto: Difícil esta questão. Porque nomear implica em excluir. Se indico tais autores, acabo suprimindo outros bons. O caminho ideal seria uma ampla pesquisa do catálogo de editoras consagradas e incluir autoras/autores de editoras independentes. É preciso lutar contra o pré-julgamento de que editoras independentes não possuem autores de qualidade. Só assim se combate a desigualdade no mercado literário. Existem muitas vozes que devem ser lidas. Um canal para pesquisa que sempre acompanho é o blog A Nova Crítica, do crítico literário e escritor Sérgio Tavares. Sérgio é um leitor voraz de literatura contemporânea e resenha diversos livros (tanto do cânone, quanto novos autores). O caminho está na pesquisa e na abertura para o novo, sempre. Existem muitos blogs literários dispostos a ler o múltiplo. A internet está aí, basta usá-la com sabedoria.

Para Liberoamerica

*Fernanda Fatureto é autora de Ensaios para a queda (Penalux, 2017). Bacharel em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. A autora possui poemas em revistas literárias do Brasil, nas revistas portuguesas Enfermaria 6; Eufeme e InComunidade e na revista espanhola Cuaderno Ático. Participa das antologias Damas entre Verdes (Edições Senhoras Obscenas, 2018); 29 de abril: o verso da violência; Subversa e Senhoras Obscenas. Estreou com o livro de poemas Intimidade Inconfessável (Patuá, 2014). https://fernandafatureto.wordpress.com

*Thais Vitale é editora de livros didáticos e professora de Língua Portuguesa e Literatura. É mediadora do projeto Leia Mulheres, em São Bernardo do Campo, no Brasil. Ministra cursos de formação de professores e esta entrevista será usada no curso A literatura feita por mulheres, ministrada por Thais, e que inclui diversas escritoras contemporâneas.

Escrito por Fernanda Fatureto

Fernanda Fatureto é autora de "Ensaios para a queda" (Penalux, 2017). Bacharel em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Possui poemas em revistas literárias do Brasil, nas revistas portuguesas Enfermaria 6; Eufeme e InComunidade e na revista espanhola Cuaderno Ático. Participa das antologias "Damas entre Verdes" (Edições Senhoras Obscenas, 2018); "29 de Abril: o verso da violência"; "Subversa 2" e "Senhoras Obscenas". Estreou com o livro de poemas "Intimidade Inconfessável" (Patuá, 2014). Site: https://fernandafatureto.wordpress.com