começo percebendo: sou mesmo só um corpo

sou mesmo várias em um só corpo

umas que falam baixo: está um pouco frio

outras: está tão quente aqui
meu nariz traz espirros e boas notícias
em suas asas leves, longos cílios piscantes
tenho mesmo os mesmos pés da infância calada
galinha depenada me ciscando a face
continuo a perceber: sentimos aqui no corpo uma ausência
que também é essência
meu olho também é um convite às outras
a ves
para que venham
que voltem que usem aqueles pés
noutras galochas noutro barro
que as cicatrizes nas palmas da mão

eu já sabia, é barro ressecado
termino começando a perceber: essa pele não é minha
trocaram no correio, no supermercado
as embalagens do produto

estou vencida desde a idade média: estamos
nos abraçando molecularmente, entornando barris
futuros de petróleo, fósseis de penas em pedras
é exatamente isso
dizemos: mulheres
a culpa é do tijolo primeiro
tijolo que é barro assado em fogo dourado
mas fogo seco e inconfundível
dizemos: mulheres
cairemos por terra
com o punho cerrado

cheio de terra
mulheres: dizem

*

por Carla Diacov e Tomaz Amorim Izabel

Escrito por Tomaz Amorim Izabel

Tomaz Amorim Izabel, 29, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: tomazizabel.blogspot.com. É colunista de crítica cultural na Revista Fórum. Nascido e criado em Poá/SP, nas margens do sonho-monstro Bandeirante, reivindica uma ascendência mineira a se reinventada onde houver ainda mundo.