da manada

vi outro dia
um cavalo semimorto no meu nome
no corpo dele, a mensagem:
quanto tempo resistimos agonizando?

as unhas parecem cozer o tempo
e a fé é uma grande ressaca

uma longa crina nubla nossa visão
temos o olho doente da mesma paisagem

há um grande abandono por aqui

um terreno baldio uma rodovia abismo

artérias inchadas de barrancos

mas (quase) ninguém vê

sabes que nossos nomes são grande uma invenção
mas o corpo, o precipício de toda espera.

dos ossos, da queda

uma idade que não acompanha
o envelhecimento dos ossos
que está sempre atrasada
devendo a algum deus
algo que nunca prometeu.

fotografo eu menina
através do filme
que não perdoa os olhos
e exibo nesse corpo já gasto
tudo o que não fui.

deve haver alguma dignidade nisso.

nas fotos,
aparece a rachadura
que nasceu na tomada do quarto
ela está subindo em direção ao interruptor
e eu a admiro.

sou feita dela
somos cúmplices na fissura
e não há nada que impeça

nosso lento avanço.

das chagas

tenho entre as pernas

séculos de antepassados afogados

e gangorras malditas que nunca saram

não há inundação que não manche a terra por onde passou

há edemas de infância costurados caoticamente entre elas

o rosto do pai em primeiro plano

remendado com a frase nunca dita:

não me ensinaste a nadar e carrego comigo o último castigo

meus fios de cabelo ainda entopem o ralo da mesma pia

enquanto trago a tona a fratura como condição

como evitar os edemas se somos feito de deslizes?

olha, vês, como está encardida nossa foto no varal.

das cicatrizes, das ruínas

tua fronte esgarçada nas primeiras horas da manhã
o corpo cru sobre a cama inválida
os pulmões sobreviventes de seus próprios dilúvios
o desejo de um grande salto cravado em cada vértebra.

quando foi que desaprendeu de ti?

assisto, como quem sempre teve vocação para a demolição
os corvos se alimentando de tua inércia vencida
sou tua testemunha incorporada nos pés da cama
estou deitada nas suas extremidades esquecidas.

*os poemas presentes fazem parte do livro das chagas que você não pode deter ou a manada de rinocerontes que te atravessam pela manhã a ser lançado pela editora Patuá.

Escrito por raquelgaio

Raquel Gaio nasceu e reside na cidade do Rio de Janeiro. Licenciada em Letras - Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRJ, atua nas áreas da poesia e artes visuais.Foi publicada em algumas revistas e portais como Alagunas, Enfermaria 6, Poesia Primata, Garupa, Literatura BR, Revista Saúva, entre outras. Leva uma vida anfíbia, embora escreva sobre pássaros.