(gralha! gralha!)

Ao amontoado de ossos e fluidos, de tendões e músculos, essa carcaça grave que nos une e não nos permite desagregar-nos fatalmente, deveríamos acrescentar os azares a as geografias que também nos formam.

Perdi uma pena, a primeira que comprei e sempre carregava comigo; gostava de apalpá-la, enfiar a mão no bolso e acreditar que era um revolver com que um dia mataria alguém de um poema na testa. Deixei-a junto à xícara de café vazia pela manhã, no dia seguinte perguntei à garçonete, mas ela me disse que não tinha visto nada. Até hoje gosto de imaginar que a guardou no avental e depois a levou até sua casa, tentou escrever algo: meio quilo de bananas/ligar pro dentista/perguntar pela tia Sofi e logo a fechou numa gaveta onde às vezes a vê quando procura pilhas e se arrepende de não me tê-la devolvido, se chama a si mesma gralha! gralha! e morde o lábio até sangrar um pouco de culpa e logo sintoniza a rádio pra tomar banho.

Umas semanas atrás, a alguns metros do lugar onde esqueci minha pena, encontrei no chão uma navalha. Quando a abri pude ver que o desgaste de anos de afiá-la tinha aberto na lâmina uma boca, uma espécie de lua minguando no aço. Lembrei do meu tio que usava uma igual, com que cortava primeiro toucinho salgado e depois uma maçã.

Pensei que o mundo estava me pedindo que passasse à ação: “deixa de escrever e mata alguém de verdade”. Por causa disso vai sempre comigo. Às vezes a abro por uns segundos e faço corvos e braços embaixo da lâmpada da escrivaninha. Outras, apenas a toco debaixo da roupa; gosto de pensar que é uma pena com a que um dia afiarei o poema que envenene os ladrões da Terra. Chamo-lhe azar ou coordenada. Sorrio um pouco ao acreditar que levo toda a história da humanidade dobrada no bolso.

………….

(¡urraca! ¡urraca!)

Al montón de huesos y fluidos, de tendones y músculos, esa casquería grave que nos une y no nos permite disgregarnos fatalmente, deberíamos añadir los azares y las geografías que también nos forman.

Perdí una pluma, la primera que compré y siempre llevaba encima, me gustaba palparla, meter la mano en el bolsillo y creer que era un revólver con el que algún día mataría a alguien de un poema en la frente. La dejé junto a la taza de café vacía una mañana, al día siguiente pregunté a la camarera, pero me dijo que no había visto nada. Aún hoy me gusta imaginar que la guardó en el delantal y después la llevó a su casa, intentó escribir algo: medio kilo de plátanos/llamar al dentista/preguntar por la tía Sofi y luego la encerró en un cajón donde a veces la ve cuando busca pilas y se arrepiente de no habérmela devuelto, se llama a sí misma ¡urraca!, ¡urraca! y se muerde el labio hasta que sangra un poco de culpa y luego pone la radio para ducharse.

Hace unas semanas, a unos metros del lugar donde olvidé mi pluma, encontré en el suelo una navaja. Cuando la abrí pude ver que el desgaste de años de afilarla le había abierto en la hoja una boca, una suerte de luna menguando en el acero. Recordé a mi tío que usaba una igual con la que cortaba primero tocino salado y después una manzana.
Pensé que el mundo me estaba pidiendo que pasara a la acción: “deja de escribir y mata a alguien de verdad”. A cambio de eso va siempre conmigo. A veces la abro unos segundos y hago cuervos y brazos debajo de la bombilla del escritorio. Otras sólo la toco bajo la ropa, me gusta pensar que es una pluma con la que un día afilaré el poema que envenene a los ladrones de la Tierra. La llamo azar o coordenada. Sonrío un poco al creer que llevo toda la historia de la humanidad doblada en el bolsillo.

………….

Iván Onia Valero (Sevilha, 1980) publicou vários livros e participa em diversas antologias desde 2011. Seus dois últimos livros de poemas são “El decapitado de Ashton” (2016) e “Paseando a míster O” (2017). É autor do blog de poesia laspuntasdeltoempo.blogspot.com

Iván Onia Valero (Sevilla, 1980) ha publicado varios libros y participado en diversas antologías desde 2011. Sus dos últimos poemarios son “El decapitado de Ashton” (2016) y “Paseando a míster O” (2017). Es autor del blog de poesía laspuntasdeltoempo.blogspot.com

Escrito por Rita Barros

Rita Barros (São Paulo, Brasil, 1984) é poeta, estudante, tradutora e produtora cultural. Tem poemas publicados em revistas e jornais, impressos e digitais, e na coletânea do Prêmio SESC de Poesia 2014 (Brasília, DF). Seu primeiro livro foi lançado em 2015 pela editora Cozinha Experimental, do Rio de Janeiro (Coleção Kraft n.7: Rita Barros). É autora do blog Sede de Pedra e coautora do projeto Antares 21, realizado em Sevilha (Espanha), onde também publicou um libreto em espanhol.