Acordo assustada na rede, tiro o cobertor do rosto e vejo pela grade do portão que o barulho de fora é o vizinho jogando caixas e caixas de entulho, latas de suplemento alimentar no jardim. Quando ele volta rumo à casa, cubro os olhos com o cobertor roxo e peludo.

Lá de dentro, a luz nublada entra violeta, joelhos flexionados e pernas abertas formam um barraquinho tomado pela nuvem de cheiros saindo da minha calcinha. Vez ou outra, emerjo olhos e nariz para espiar, coloco as mãos para fora, balanço as folhas da oliveira.

Mergulho novamente.

Esfrego as mãos no rosto ainda sonolento na tenda violeta e tudo se interrompe pelo perfume do sabonete de castanha. Passo a língua pela ferida nos meus lábios.

Respiro.

13820691_10209842727368832_133079648_n

 

*Desenho do Fernando José Karl – Priscila e o daimon

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, bailarina de rave, artista visual, curadora principiante, vidalóki mas nem tanto. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo. Hoje vive em Curitiba (Paraná).