Tenho dito que a vida aqui vai bem, caminhando, devagar e sempre, todas as vezes que ligo. As palavras têm poder, não é o que digo pra vocês? Então, invoco o poder da minha fala e das palavras na esperança de que assim seja. Mas dessa vez não. Não! Não disfarçarei, com o sorriso baço que vocês não veem, a vida que vai me levando até o dia de não poder mais.

A vida desta cidade não tem sido lá tão boa pra mim, cantava Raimundo Sodré nas manhãs de alegria e vinil da minha infância. Como eu mando dizer toda vez nas cartas fartas de amor que eu mando pra vocês. Era a dor dele na distância do seu pertencimento. É assim que me sinto. Uma farsante enganando a si mesma. Aprendi que a queixa não muda as coisas, ações sim. Então, ajo no meu silêncio diante dos desconfortos, dos infortúnios, das saudades, das ausências, da falta de muito do que sou e que só está aqui, dentro de mim. Mas isso não basta.

Revejo os meus fantasmas, viajante que sou de muitas estradas. Cada uma delas tem um espectro que guarda o passado, alguns fantasminhas camaradas, outros nem tanto. Opto por deixar o passado em seu lugar e presentificar-me no agora. Difícil exercício. Onde estou quando estou aqui? Estar longe de onde fiz e refiz-me de barro e água é sentir-me estranha. Estrangeira. Sim, estrangeira dessas terras onde estou agora, estrangeira de mim mesma no distante do que sou. A distância e o tempo embaçam a visão sobre o que não é visto. Esforço-me para limpar as vistas e ver na memória a clareza do meu pertencimento. Não é fácil.

Líquida, me perco facilmente, escorro, deslizo, me molho do sal dos meus olhos. A vida aqui não tem sido fácil. Ficar é um imperativo que me dói. As diferenças daqui? Vocês sempre querem saber. Sim, as diferenças, o clima, o modo de vida, as pessoas, os hábitos. Estrangeira sou, da fala à pele, ao ser. Mais me afirmo no não pertencimento, no gesto fácil e no bom dia. Pertenço-me aí, insistentemente não sou daqui. As diferenças não doem por fora, elas rasgam no meu dentro. Ferida, esperneio em silêncio cortante. A quem gritar a minha dor, estranha e só? Não mãe, o minuano não corta tanto a minha pele escura quanto os olhos de enxergar e desver. O mate, pai, não amarga tanto quanto a ausência que sinto dos meus. Li, de uma certa Adélia, que mulher é desdobrável. Eu sou. Aprendi. Desdobro-me no riso e nos olhos vivos que herdei daí. Encaramos as dificuldades com esperança de melhores dias, não é? Com sorriso no rosto e batalha nas mãos. Desdobro-me porque sou mulher, mãe. Contigo aprendi a ser forte e a reinventar-me na intempérie. Às vezes choro. O líquido rega-me na exigência de renovar-me e seguir adiante, até o dia de não ser mais preciso.

Aqui, tudo vai bem, por fora. Por dentro um oco a encher-se no dia que virá. Não se aflijam. Estou bem, apesar, exercitando o sorriso no rosto e a luta nas mãos. Deixo um abraço, pai, mãe, cheio do calor que falta aqui. E um beijo úmido das saudades que doem à garganta.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.