Irina Joanne
Trago sobre os ombros do tempo uma coleção de acidentes [verbos boquiabertos : risos ossudos : versos  corcundas : dedos camboios : olhos agudos : corpos ocultos : almas diversas. Os dias sopram um vendaval no coração dos medos roçando nos poros suspensos os gemidos da morte –, densa muda esdrúxula –, oriundo de semitons e luzes cegas. Assim, nasce a ternura avulsa regida pelo revés do ocaso. Reviro a linguagem dos signos à procura de um amuleto : uma crença oblíqua ou uma reza coalha de santo sem nome próprio ¦ um deus de flores bênçãos e colo fresco. Em mim carrego uma poética selvagem de antigos ventres surdos duros moribundos. Nenhum sono repõe o que vivi. Nenhum amanhã cura o que sangrei. Sob o hálito ébrio da desalma aspiro um orfanato de ventos incertos. É um milagre pagão descansar a lágrima à beira do asfalto da sensibilidade. Vastos os vazios acontecem.
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Como um deserto entre variedades vivendo de nunca chegar a ser vastos [os vazios acontecem não importa o estado da artéria, tampouco os sonos hibernados das ausências. Como um deserto entre variedades vivendo de nunca chegar a ser escravos [os vazios acontecem não importa o estado da matéria, tampouco as euforias histéricas das essências. Ninguém consegue prever seus rostos, curvas ou identidades – nem ao menos o gosto ou o desgosto da alma. Na marcha dos passos que esmagam estômagos o ardor labiríntico alarga-se : o silêncio tornar-se aéreo : as peles desintegram-se, mas nunca sabemos qual defeito amputam os pulmões dos seus ecos. Os dedos das angústias pespontam no tecido do tempo uma cidadela inglório nos submundos interiores [à deriva em mim os pulsos dos pulsos se rebatem estreitos nos apertos como pássaros batem asas esvoaçando nos ventos. Exatos como um poema de um só fôlego tem mania de dar-se inteiro : tem mania dar-se intenso : tem mania de amar mistérios – nunca sabotei a vontade de deus, e vejo ainda o inferno, diria o poeta concluso à própria inconclusão intrínseca. Quão difícil é a nudez quando irônica [eu sorrio, mas para dentro sem emprenhar ofensas. Enterro temporariamente minha intérprete para assumir minha verdadeira pele. Sem medos lamúrias ou amarguras.

Prenhe das minhas próprias misérias meu corpo não responde aos contornos dos apelos [aprendi a domesticar os ecos no útero dos gritos – alfabetizo meus medos no ácido dos espinhos. Onde antes escancarei todas as portas lendárias, abro agora uma janela autêntica. Comprimida nas encapsuladas agonias sofria de misofonia severa, onde cruento o zumbir dos vazios mastigava-me sem pena – ainda hoje pasma-se-me o corpo. Ainda hoje ainda agora ainda já [descobri sua alma e procurei incansável sua carne. De repente, não mais que de repente compreendi meus vazios como estados de desconhecimento, e o desconhecido é a própria nudez das bênçãos entregues a simplicidade das coisas. Em breve –, desconfio –, espreitarei pela fresta da cortina. Todos os corpos estendidos nus sobre os vãos dos ecos ouvindo a voz confusa dos próprios sentimentos.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.