Anka Zhuravleva

Apesar das ausências e gastrites : das saudades e azias : apesar dos boicotes e agonias : das durezas e sangues frios : apesar das sortes e crenças vazias, dos odes e versos corrosivos. De acordo comigo mesma, sou uma espécie de céptica cheia de ilusões [a vida é meu inferno, contudo minha paz. Indigesta como fratura exposta sou áspera e dramática, densa e imediata – um dilúvio entupido de revoltas que aceita, resiliente, o protagonismo da vilania dos sentimentos. Entre o osso e a pele estou detrás de um lugar que não existe [o centro do meu corpo irrompe um abismo. No útero das perguntas histéricas sou o silêncio das interrogações sem vozes, embora nas silhuetas dos ventos comungue os gemidos vultuosos dos ecos. Entregue a embriaguez das febres o absurdo é homeopático. 

Estranhamente dentro choro encolhida nos braços tangíveis dos silêncios : entranhadamente fora choreço nos brados tangentes de um outro alguém em mim cego. Envolta no paraleslismo destes dois mundos contrapostos, aprendi a assombrar a doidura alumiando a lucidez eclodida nos amadurecimentos semiáridos. Entre as aleluias e as agonias de ser sou uma espécie de alma perenemente sofrida [nasci para sentir sem meios-termos : sem meias-vísceras : sem meias-tripas – vivo a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto. Lúcida sou objetiva e morrerei assim. Não me antecedo, tampouco me ultrapasso [ora sou prego da cruz, ora sou alívio das chagas. Travestida de um gesto : uma coisa : um alguém – não me atenho a nenhum predicado. No antro vasto de suposições vagas existo nas emoções bifurcadas. No entanto, endereçada pela maturescência letárgica ocupo uma essência prolixa, embora precisa em secas palavras. Profusa sou ranzinza, azeda e irritável [surto sem o mínimo esforço. Porque feito estômago desnutrido queimo, latejo e coroou. Porém, albergado em mim vive somente quem me desconhece como aprendizado. Não há místicas, tampouco mistérios. Se não treme a carne do peito, não estremece o cerne da pele. Na cegueira das dúvidas crer nos confia luz nos olhos.

Eu, tantas vezes inóspita, tantas vezes estúpida, tantas vezes selvagem acendo esperanças nos lábios ácidos das inanidades. Nesta dança esdrúxula destilo lágrimas enquanto nebulizo fátuos. Legítima invado a intimidade dos seus egos para entreter impregnados enganos [consentidos vazios de amor próprio. Agora às margens das humanas vulnerabilidades inclino em reverência a sua nua identidade. Já não sei a diferença entre a coisa aprendida e a coisa ensinada. Nos pomares desérticos dos silêncios berro como câimbra nos ossos das rezas cegas. E, no meio de tantos incômodos e algumas desavenças sou o interior e o avesso da aparência. Na travessia desta fronteira de sombra meu papel é externar seus sóis nos recontros e esticar suas asas nos reencontros interiores. Na humanização do espírito hei de levar apenas a vertigem e a fé. Na ruptura do peito sou sua dor.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.