Nesses tantos anos nenhuma mulher me causou tanta tensão quanto aquele singelo potinho. Já na recepção, enquanto acertava o exame no guichê, uma tia estranha passou com um sorriso direcionado, não menos estranho, por detrás da atendente. Retribui o sorriso. Acho que no visor da tela, ou na minha testa mesmo, estava cravada a palavrinha indecente… Vamos lá, qual a novidade?

Você deve, primeiro, passar essa loção na glande e no prepúcio, depois essa outra e, por fim, terminar a higienização com essa gaze aqui, explicava-me o chinês no banheiro da salinha. Um chinês naquela situação, não sei o porquê, também me soava estranho. Depois, por meio de uma masturbação evolutiva, deposite neste potinho uma ejaculação inteira. Ok, tudo bem. Ok? Acho que nunca tinha escutado nomes tão técnicos para isso, e tão bonitos… Poderia ter sido mais direto, sei lá, cabeça do pau, porra e punheta todos sabem do que se tratam, mas o chinês seguia seu protocolo maquinal, e eu fingia lhe dar atenção. Minha cabeça começava a ir longe, e por “inteira” eu entendi que a porra, quero dizer, ejaculação, não poderia ser picada, e deveria ser uma só, pá, na lata!, ou melhor, no potinho. Depois que terminar, devidamente vestido (enfatizou), você deve apertar esse botão, assim, e a luz vermelha acenderá. Deixe a porta semiaberta, que virão te atender e finalizar tudo. Você pode usar a tevê… Ligou-a nesse instante sem esboçar qualquer atenção aos órgãos em ação frenética que surgiam, tomando toda a tela. Também tem umas revistas aqui embaixo, tudo bem? Ora, sim, tudo bem, sem novidades… Passei praticamente uma década fazendo isso diariamente, pensei. Qual a novidade?

A tevê estava muda, seria preciso aumentar o volume para que houvesse um mínimo de empolgação no ar. Olhei o relógio e me perguntei se estavam cronometrando minha presença ali. Também o chinês não me havia falado nada do tempo a ser dispendido no processo. Desencana, disse a mim mesmo, e apertei o botão… Só que errei, acertei o de canal ao invés do de volume! Eis que, não mais que de repente, surge uma procissão de fiéis cantando hinos com um santo nas mãos, e o “Canal Aparecida” gritava em alto e bom som, já que na sequência, e no desespero, acertei o volume. Que merda!, cantos pra Nossa Senhora não vão dar muito certo… Tentei voltar ao canal anterior, mas caiu noutro nada a ver. E agora? Qual era o nome do filme que apareceu na tela mesmo? “Mamadoras”… “Chupadoras”… Ah, “Nascidas para Chupar”, lembrei-me… Mas nada de encontrar o filme! E como manusear aquele menu estranho? Em nada parecia com o da tevê de casa… Sem chance, vou ter que chamar ajuda!, pensei.

Recoloquei o cinto, que havia descartado assim que o chinês deu no pé, e apertei o botão. Luz vermelha acesa! Não devem demorar… Mas, cinco minutos depois, pensando no relógio que continuava a correr, conclui que não devia perder muito tempo, e outros canais adultos deveriam existir, claro…  “For Man”. Ok. Um canal para homens, parece propício. “As aventuras eróticas d…” era o que dava para ler na tela cortada. Não cogitei duas vezes, entrei. A tela se abriu com a menção: clique aqui para comprar “As Aventuras Sexuais de um Transexual”. Porra!, isso não deve me animar muito, pensei, e, de súbito, o chinês bateu na porta.

Já terminou?, ouvi a voz sacana vindo de fora… Não, não, nem comecei direito, é que apertei o botão por engano, desculpei-me, desesperado.

Caralho, isso não vai ser tão fácil!, disse ao controle remoto.

Com muito custo, consegui sair da tela. Entrei noutros filmes adultos e todos estavam bloqueados, somente para compra. Será que posso comprar? Será que virá num boleto adicional por correio? Calma lá, basta achar o canal certo. Vamos do começo. Calma, porra, calma!

Depois de uns dez minutos encontrei o filme redentor, “Nascidas para Chupar”. Yes! Yes! Pulava de alegria. Adeus, Nossa Senhora… Deixei o filme rolando em seu clímax total e fui ao banheiro fazer o processo higienizador. O primeiro paninho com loção soltou tanto tecido que a cabeça, digo, glande, parecia  um algodão doce. A outra loção deve retirar isso, pensei… Mas nada, dobrou a quantidade de algodão! Merda! E a coisa colou foi de vez… Devo jogar água? Pelo sim, pelo não, tasquei o método convencional. Saliva vai, saliva vem, depois de uns cinco minutos devo ter conseguido extrair noventa por cento do algodão. O resto deve sair com a pu, não, masturbação, imaginei. Larguei as loções pra lá.

Olhei a poltrona e um cabide atrás me incentivou a descartar toda a roupa. Será preciso relaxar, tive certeza… Na mesinha, meu celular gritava também: “E aí, tudo bem? Já terminou? rs rs rs rs rs”, li a mensagem irônica da minha mulher. Com essa pressão também não vai dar certo!, xinguei-a, sem nada responder. Desliguei o celular e relaxei, nu, na poltrona. Agora é me concentrar… Só que subia as letrinhas e as “Nascidas” chegavam ao seu melancólico fim.

Tudo bem, sem novidade, outro filme deve vir na sequência, e o que são alguns comerciais?, falei com o potinho. Porém, aos poucos, fui reparando mais a fundo aquela estranha cena na qual estava envolvido… A tevê corola à minha frente, eu nu numa sala esquisita, um potinho ao lado me inquirindo “E aí, é pra hoje ou não é?”… Ah, cale a boca!, censurei o desgraçado.

O comercial se estendia, eterno.

Puxei a revista ao lado da tevê e vi que era uma playboy. Legal!, pensei, sem notar que na capa estava a Claudia Ohana. Nada contra, mas de tanto minha mulher zoar com minha barbicha, chamando-a até de “Claudinha”, aquela mulher havia se tornado para mim mais broxante que Nossa Senhora. Joguei a revista no chão, já com raiva, olhando o relógio que batia quarenta minutos depois de eu ter entrado na sala. Contive-me, tentei relaxar e, finalmente, percebi que começava um novo filme. Agora vai!, disse ao potinho.

Para minha total angústia, o longa tinha uma história… E história triste!… E longa!… Cena escura… Trilha sonora fúnebre… Mulher chorando a morte do marido, olhando fixamente o seu retrato… Blá… Blá… Blá… E eu já quase chorando. Estava quase pra desligar a tevê quando surge o irmão do defunto para tratar de questões do testamento. Quanta burocracia! Conversa vai, conversa vem, ela repara que eles são muitos parecidos e isso a excita, e… agora vai!. Fechei os olhos, entrei na cena, e consegui uma ereção. Uhu!, gritou o potinho… Não tenho tempo a perder, pensei, e acelerava o processo ao máximo. Com a esquerda. Com a direita. Com as duas mãos! Com a direita de novo… Só que, vez em quando, sem me dar conta, voltava à cena real, via-me na sala estranha, o potinho me sondando, e a concentração cambaleava, descambava.

Quarenta minutos depois, uma hora e vinte depois de ter entrado na sala, com a ferramenta na mão e em progressiva ação, o maldito chinês bateu na porta, perguntando se estava tudo bem. Tô quase lá, quase lá, gemi, tentando ignorar a interrupção do filho da puta. Tudo bem, quando terminar aperte o botão, a luz vermelha, se lembra? Porra, claro que eu me lembro! O chinês foi embora e tive a sensação que ainda ficou a escutar com o ouvido na porta… O potinho, sarcástico, insinuou que eu era um paranoico e, de tanta conversinha paralela, minha ereção, sem trocadilho algum, estava indo pro saco…  Mas revidei! De raiva, e a raiva é mesmo um dos elementos da excitação, segurei firme o filho da mãe e, para não perder nada, tasquei a glande dentro dele. Agora você me paga!, pensei. Sufocava o potinho e sentia que estava chegando a hora… Quase lá… Ahhh!

Torci o instrumento ejaculatório, como se torce roupa para o varal, com o intuito de extrair o máximo dele. Analisei a cor do líquido, a consistência, e tudo me pareceu  satisfatório, substância e quantidade. Sem perda de coleta! Depositei o resignado potinho no local previamente indicado, lavei as mãos, vesti-me e acendi a luz vermelha. Joguei-me na poltrona, olhando o teto com a sensação bizarra de dever cumprido.

Dias depois, com resultado do exame em mãos, enviei uma mensagem para minha mulher:

“Saca só… Trezentos e trinta e três milhões de espermatozoides!, sendo oitenta e seis por cento progressivos, nove por cento não progressivos, e apenas cinco por cento de inativos!”

“Caramba, vai dar pra fazermos um time de futebol com isso ai! rs rs rs rs”, respondeu-me, cheia de graça.

“Em verdade”, repliquei, “oitenta e seis por cento são exatamente duzentos e oitenta e oito milhões e noventa e seis mil espermatozoides, o que daria pra fazer vinte e seis milhões de times de futebol progressista, com alguns reservas… E por gozada!”, enfatizei no final – meio besta.

Todo orgulhoso.

Escrito por Willian Delarte

Escritor brasileiro. Autor dos livros "Sentimento do Fim do Mundo" (poesia), "Cravos da Noite" (contos) e "O Alien da Linha Azul" (poesia). Tem publicações em diversas mídias e antologias. Foi co-editor da revista REBOSTEIO Digital.