Aproveitando o lançamento da terceira temporada da web série Pássaros Ruins (projeto do Adriano Esturilho, que produz curta-metragens a partir da leitura de poemas de escritores que fazem parte da cena literária do Paraná), que vai contar com um vídeo em que eu faço uma leitura do poema Clavícula, presente no Manual de Feitiçaria, publico uma entrevista sobre ele, feita pela aluna do curso de Letras da UFAM, Davimar Nunes, para um trabalho sobre poesia em meios digitais, sobre orientação da professora Adriana Aguiar. O Manual pode ser acessado aqui:  http://pt.calameo.com/read/002318534d1ff54c02a44

Existe e se existir qual a relação entre as pinturas de Olaf Hajek e suas poesias (principalmente Lição 1, Lição 2, Lição 6 e Lição 10)?

Eu gosto muito dessas pinturas, foi a Nina, a editora, que escolheu. Acho que ela pensou e, pra mim, acertou, que aquelas cores e paisagens meio paradisíacas, meio psicodélicas, mas, ao mesmo tempo, sofridas (uma dor que parece ficar lá no fundo de tantas cores alegres) tinha afinidade com a atmosfera dos poemas, que buscam, não sei se conseguem, suspender o leitor e quem escreveu, do mergulho no cotidiano das palavras e das pessoas, levar pra um lugar onde a reflexão desinteressada, ou reinteressada talvez, e a brincadeira de acreditar em magia, combinar, inventar, ganham primeiro grau de importância.

No caso das imagens das lições, eu teria que falar separadamente. Não fui eu que escolhi elas, então o que eu vou fazer, na verdade, é uma tentativa de leitura da escolha da Nina.

A primeira, um retrato bem de frente assim, me parece como que uma porta de entrada para um lugar diferente, coloridão daquele jeito lá e o poema funciona como que um mantra para transportar e, ao mesmo tempo esvaziar, a cabeça para a chegada dos outros poemas.

A segunda mostra um casal nu tomando banho, né. Uma forma de escapulia!

A ferida, acho que ela quis associar à condição feminina no mundo. Tem sempre essa ligação da mulher com a serpente e a mulher do quadro parece a Frida, né? Frida sofreu bastante…as pinturas dela são meio que a casca dessas feridas.

No 10, tá ventando na pintura e deu uma impressão muito legal. Além disso, pra mim, o nu é uma coisa super aérea, essa sensação de leveza que se tem quando tiramos a roupa, o ar passando na pele, quase um nascimento, um sair da ostra, etc.

Em relação à “Lição 1”, para você, realmente há uma propagação na palavra “OCO” ou isto seria uma simbologia?

Oco é um palíndromo, daí eu dizer que ele faz eco. Vai e volta, e se você repete, ele fica indo e voltando, indo e voltando, como se tomasse conta de todo o espaço e como ele significa justamente o espaço vazio, acho que funciona bem como poema de abertura, pra fazer com o leitor aquilo que eu disse na outra resposta. Mas eu acho que lendo em silêncio funciona melhor que em voz alta.

Por que você optou pela relação de “feitiços e sentimentos”? Qual é essa analogia ao manual de feitiçaria?

É uma brincadeira. Brincar que as palavras são mágicas, que se você acreditar de com força, rs, elas tem o poder de te envolver, te mover, alterar as coisas ao teu redor, te dar uma capa de invisibilidade, te fazer virar poeira, árvore, te fazer gozar, várias mágicas. E se você acredita nisso de verdade, ou se já funcionou com você, só pode ser porque elas te afetam muito.

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Por que você faz uso de estruturas nada tradicionalistas principalmente na “Lição 10”? Seria a influência do movimento concretista no seu trabalho?

Olha, eu comecei a escrever sem ter muito domínio da literatura, não li muito na adolescência e assim que comecei a estudar literatura na faculdade, comecei a escrever. Então eu escrevia, e escrevo até hoje um pouco (mas bem menos), de uma forma totalmente intuitiva, tinha uma ideia e, sem aprofundar muito ela racionalmente, colocava no papel como se fosse um pedaço que eu tirasse do fluxo da minha cabeça. Sempre sai bastante coisa que escuto na universidade, até hoje, mesmo porque é um dos raros lugares onde se ouve reflexões muito boas sobre literatura, artes, filosofia etc.

Você pode nos falar um pouco mais sobre você (Por exemplo: se você é adepta a algum movimento atual)?

Nos últimos dois anos eu ando bastante interessada pela cena pós-pornô da américa latina. E ela tem crescido no Brasil, esses acontecimentos todos envolvendo militância e expressões artísticas queer e feministas com o MBL e com a polícia acabou, de certo modo, também jogando um rojão de luz nesses artistas, como o Maikon K., aqui de Curitiba, e a mostra da história da sexualidade do MASP ou o Igor Cavalcante, lá de João Pessoa. Mas tem muito mais gente, alguns artistas fazendo trabalhos dentro da universidade, ou por meio de editais também, ou na cara e na coragem, como eu mesma e alguns amigos, o que eu acho incrível. É urgente falar sobre pornografia hoje em dia.

O mercado editorial alternativo, essas revistas digitais, blogs de literatura pessoais e coletivos, copyleft, publicações artesanais é um ramo encantador da literatura contemporânea.

Como você conheceu a Revista Ellenismo? Como ocorreu essa publicação do e-book para você?

Eu tive muitos blogs, agora estou sem. Quando escrevia em um deles, comecei a postar alguns textos com o hiper-título Manual de Feitiçaria, finalizei o livro com esse título e pensei em fazer umas tiragens pra amigos dele, acabou não rolando. Depois a Nina conheceu meu blog (nós duas escrevemos pro Escritoras Suicidas, um site muito legal, todo de autoria feminina) e me convidou para editar o livro pela revista dela, a Ellenismos e foi.

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, artista visual, curadora. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo. Hoje, vive em Curitiba (Paraná).