20087

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.

Era 23 de março de 2015, quando aos 84 anos partia (ou regressava?) Herberto Helder (1930 – 2015). Me recordo como se fosse amanhã: era uma manhã. Trêmula na memória, uma manhã adormecida. Ele, como um longínquo arquipélago, partia, mesmo que ainda vivesse nos gatos roçando as mãos. Ele dizia: “minha cabeça estremece com todo o esquecimento, e procuro dizer como tudo é outra coisa. (…) é sempre outra coisa. Uma só coisa coberta de nós”.

Não consegui respondê-lo naquele instante, não consegui cobrir o vazio de perder o que não se possui. Acabei criando um livro nesse tempo morno, Sombras & Luzes, dedicado a respondê-lo. Entre 2014 e 2016, em desordem me estirei negando sua morte, mesmo ciente do provável:“a morte passa de boca em boca, com a leve saliva / com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida”. 

“Por vezes tudo se ilumina. Por vezes canta e sangra”. Herberto morreu como eu gostaria, à boca da noite: o coração escapulindo, fulminante. Era segunda-feira. “Por vezes tudo se ilumina. Por vezes canta e sangra”. Por vezes, só termina. Ele tinha razão: a morte é sem mestre. A morte é sem coração.

O maior poeta de língua portuguesa desde Fernando Pessoa viveu quase 85 verões, atormentado e celebrando os campos interiores. Confabulava entre a confusão e a formulação, recusando-se sempre a ser o que o seu eu rejeitava.

A fortíssima predileção por suas imagens causou assombro em sua permanente passagem na poesia do século XX: “sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. as pessoas imaginam seus próprios campos de rosas. e às vezes estou na frente dos campos, como se morresse. outras, como se agora somente eu pudesse acordar.”

Mas muito antes do presente, em 1958, Herberto Helder publicou o seu primeiro poema, um dos meus favoritos, O Amor em Visita. Acho impressionante como em certos autores já observamos uma maturidade tão maciça em pouca idade, recordando-me também de João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999) e seu primeiro livro, Pedra do Sono (1942).

O tempo continuou tecendo suas linhas, e 56 anos depois, em 2014, Helder publicou o seu último livro em vida: A Morte sem Mestre. Visto como uma intrigante sentença e pedido: não o endeusem. Não sei se ele imaginava a dificuldade desse pedido, afinal, foram quase 60 anos de literatura e mais de 30 livros publicados.

No ano de 2015, o último trabalho organizado por ele foi publicado postumamente: Poemas Canhotos. Selando uma prévia despedida, os versos da obra vagueiam uniformes à espera da morte, lentíssima corrente, mesmo sabendo que é “tudo tão prodigioso que não se entende nada”.

Em 2016, outra grata surpresa firmou seu adeus: Letra Aberta foi publicado. A obra de 72 páginas contém poemas inéditos recolhidos pela viúva do poeta. O livro traz uma profunda reflexão da despedida do ser humano fadado a uma finitude expandida: “E a verdade é isto: a mistura de exemplos e de enganos que a mim mesmo infundo”.

livro herberto

Herberto Helder, conhecido também como o “mago da palavra”, foi um poeta abrangente, excessivo, intensificado pela possibilidade do verso longo, pela visão de uma capacidade analógica e imagética, que destoará por um longo tempo de outros poetas: singular é ainda redundante, secular é ainda mais conclusivo – para dizer pouco.

Trabalhador exigente, aurífero de inúmeras metáforas e de inesperados símbolos, resgatou temas importantes, como clássicos de Camões, textos bíblicos, imagens arcaicas da sexualidade, além do flerte com a morte, com a biologia, com a feminilidade, com a aspereza do imóvel contra o móvel do tempo.

Não consegui respondê-lo naquele instante de partida. Não consegui cobrir o vazio de perder o que não se possui. Ainda não consigo. Imagino-o navegando entre os escombros e as espécies em extinção: um longínquo arquipélago. Trêmula na memória, esvaeço.

Herberto, volte quando puder: “como o fogo cria assim a sua própria sombra”. 

Escrito por Mariana Basílio

Mariana Basílio (Bauru - SP, 1989) é uma escritora, poeta, e tradutora brasileira. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Dedica-se à área literária desde 2014. Traduzindo diversos autores americanos e latino-americanos, entre eles, Alejandra Pizarnik, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Emily Dickinson, May Swenson, Silvina OCampo e Williams Carlos Williams. É colaboradora de portais nacionais e internacionais, escrevendo também ensaios. Tem poemas, entrevistas e traduções em diversas revistas nacionais e internacionais. É vencedora do prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo pelo seu terceiro livro de poesia, Tríptico Vital (Patuá, prelo, 2018), dedicado à escritora e poeta, Hilda Hilst. Site para contato: www.marianabasilio.com.br