O perigo são as minas intelectuais que pisamos e que nos mutilam o corp-propre / Leib, alteram a nossa percepção, concepção, digestão dos sítios que visitamos.

Porque na realidade os sítios do mundo são tecidos por nós também. Tal como somos nós que os construímos com as nossas próprias mãos, somos também nós que os habitamos e que lhes edificamos atmosferas. Nós próprios somos parte deles. A um determinado nível, não existe diferença entre uma pessoa e um objecto ou uma infra-estrutura “urbana”. Ambos ocupam o espaço. A um determinado nível não existe diferença entre o vendedor, o pedinte, a criança, o idoso, o estudante e a vivenda, o condomínio, a estação, a ponte, o espaço verde. Ambos participam no forjar da ideia que adquirimos desse mesmo lugar. Ambos o tornam, de maneiras naturalmente diferentes, num espaço vivo e que vive ininterruptamente na actualidade.

Os lugares são matéria que sofre perpétua actualização. É viscosa, fluida, atomizada, como plasticina que podemos juntar e dividir infinitamente.

A importância desta noção assenta a meu ver na diferente constituição material entre as pessoas e as infra-estruturas. Baseando-me no modo como convencionalmente distinguimos o material do imaterial, a diferença fundamental entre ambos será o facto de associarmos às pessoas algo que excede os limites espaciais de um determinado local. Ao contrário de edifícios e construções fixas, as pessoas movem-se de um sítio para o outro. E com elas movem-se também mercadorias. Mercadorias que podem ser os corpos andantes. Mercadorias que podem também ser ideias ou concepções, podem ser estados de espírito e atitudes.

Pensemos talvez em dimensões, como a primeira e segunda e a terceira que conhecemos.

E tal como as pessoas que ocupam o espaço, o alteram e tal como aquilo que caracteriza o espaço não se limita apenas àquilo que permanece fixo ao solo dentro de local x ou y, não é a mera alteração física no lugar (como a construção, o abandono ou a reabilitação de edifícios e infra-estruturas), mas também as ideias que giram à volta dele, as ideias que se desenvolvem sobre esse mesmo espaço e que correm fora dele que conduzem a um nascimento de novos ramos, bifurcações, caminhos responsáveis pela caracterização do mesmo. São os discursos, o debate, a análise.

É também aquilo que é dito que determina o espaço, é aquilo que é dito que nos faz percepcionar o espaço, que nos leva a tomar mais atenção a umas coisas e a negligenciar outras.

E é precisamente este aspecto que se me tornou mais claro. É o poder intelectual que temos na alteração dos locais. Lembrei-me disto mesmo quando num dia de Inverno caminhava por Berlim e me esqueci que era mesmo esta cidade que pisava.
Em Berlim não existe realmente um centro da cidade. Existem várias pequenos bairros que, por reunirem uma série de características tão vincadas e correlacionadas entre si, nos parecem mais pequenas aldeias.
Kreuzberg situa-se a centro-este, Neukölln a sudeste, Friedrichshain a este, Mitte no centro, Prenzlauer Berg a nordeste. São estes os bairros mais populares de Berlim. São estes também os que sofreram maiores transformações nos últimos anos, aqueles que matam a sede à gentrificação. Quando a maior parte das pessoas pensa em Berlim, pensa nestes bairros, pensa no punk e no techno, numa liberação do género, na cultura BDSM e na cena gay, pensa nos bares iluminados grosseiramente com velas enfiadas em garrafas, pensa nas livrarias e nas lojas second-hand, pensa nos restaurantes vietnamitas e nos cafés, onde se lê e se bebe chá de gengibre, pensa na ética alimentar e nas lojas biológicas, pensa na street-art e numa estética urbana que desconstrói o próprio conceito de estética, pensa num campo de férias, no prado da descoberta e do aprofundamento individual. A ideia que as pessoas colhem sobre a cidade de Berlim tem algo de utópico.

Schöneweide situa-se a sudeste de Neukölln, não demasiado fora do centro, na zona B. Habitado pela classe média. Uma freguesia outrora fortemente conotada pela presença de um aglomerado de extrema-direita, floresce agora e torna-se cada vez mais incluída na zona de Berlim central. Mudam-se alguns estudantes e artistas que procuram rendas ainda não infectadas pela besta buliçosa chamada gentrificação.
Mas Schöneweide não é Kreuzberg, nem Neukölln, nem Friedrichshain, nem Mitte, nem Prenzlauer Berg. Nem chega mesmo a ser Schöneberg ou Wedding.
Trabalho em Schöneweide. Lá passo alguns dias por mês, refugiando-me da popularidade de Neukölln.

Leio uma passagem de diário do dia 16 de Fevereiro de 2018:

Às vezes imagino que algumas partes de Schöneweide sejam semelhantes aos confins dos EUA, algo para lá de Twin Peaks ou de Buckhorn. Quando estou em Schöneweide esqueço- me que estou em Berlim, porque toda a gente fala de Berlim como Mitte, P-Berg, Neukölln e por aí fora.
[…]
Parece que a maior parte das pessoas em Schöneweide procuram chegar a um sítio qualquer interior, fazendo do exterior apenas passerelle para roupas da vida precária.
Os sítios interiores que vejo em Schöneweide chamam-me a atenção, porque reúnem em si claras projecções de algo obsoleto ou primitivamente passado, de algo nítida e cristalinamente actual e de algo que nos faz não só pensar, como também ver o futuro. E são tristes, chupados e mirrados de vida enquanto, ao mesmo tempo, albergam em si tanta gente. Existe o grande cubo de vidro com a palavra “Schöneweide” escrita a vermelho, ao lado de um saco de compras antropomorfizado por uma cara sorridente. O grande cubo de vidro não é muito diferente dos centros comerciais em Portugal. Tem muita gente, muitas lojas. Muitas coisas, cheiros, sons justapostos que não combinam uns com os outros. As pessoas parecem estar à espera de alguma coisa, porque esqueceram que ainda podem puxar de si algo para o mundo. Estão à espera de qualquer coisa como algo para consumir.
[…]
Aqui a ética alimentar não parece carregar grande importância. Aqui não existe a noção burguesa daquilo que é sustentável. Na comida e na roupa.
[…]
Também existe um restaurant/bistrô/Döner, que me salta especialmente à vista e que me desperta especial interesse. Trata-se de um Döner normal que também vende frangos. Quando entramos, parece ser aquilo que já conhecemos: balcão-expositor de vidro engordurado, menus iluminados exibindo a comida rápida e rica em hipertensão e colesterol, um espeto de carne rotativo. Ao avançarmos ligeiramente para trás, encontramos uma sala parecida com um diner americano. A luz é escassa e as mesas imundas. Há sempre uma ou duas pessoas sentadas, nunca mais do que isso. A música mal se ouve, mas percebe-se que vem da rádio. Cheira a fritos e carne. Esquecemos que estamos numa estação de S-Bahn em Berlim, porque parece que estamos algures numa via estado-unidense, à espera que o calor ou o frio passe ou que apareça uma rapariga de peitos formosos ou um cowboy pronto para o touro mecânico. Um cabaret do patriarcado.
[…]
Acho fascinante este confim do mundo no meio de uma cidade que parece a muitos ser um centro do mundo. Quando apanho a S-Bahn todas as manhãs após o trabalho, noto que existe algo de diferente de Neukölln. As pessoas acordaram cedo e têm de ir trabalhar. Lutam contra o frio entre roupas banais aos olhos de Neukölln. Há sempre qualquer coisa de proletariado.

Tenho-me facilmente à mão. Olho para mim como um tear de discursos que me tecem as ideias. Para que não tenha de me sentir desconfortável e repugnada comigo própria, procuro olhar para as passagens como materializações de algo que aconteceu, um culminar específico de ideias que são tão minhas, mas que também podiam ser de outrxs na minha posição.

Ao descrever xs transeuntes que observo em Schöneweide, deparo-me com um choque que deveria, teoricamente, ser um fenómeno normal para quem se movimenta numa grande cidade. Mas não. Penso às vezes que as grandes cidades como Berlim não são sopas culturais, não são aerossóis que respiramos e que nos abrem as narinas para a percepção dx outrx, não são fusões líquidas ou gasosas dos infinitos elementos presentes. Vejo-as muitas vezes como um sólido ajuntamento de pequenas caixas que se dividem de forma clara entre si. Ou talvez como uma cebola e as suas camadas, distribuídas do centro para fora, fazendo o padrão central desvanecer proporcionalmente ao movimento que dele se afasta para o território periférico. E acredito que isto aconteça especialmente devido às ideias que implantamos na cidade de Berlim. A segregação também acontece através da palavra.

Ninguém fala de Schöneweide e da classe trabalhadora quando fala de Berlim. Fala-se apenas da coolness que já todos conhecem, que já todos esperam.

Esquecer que a cidade não é só o sonho da juventude europeia é também contribuir para a homogeneização da mesma. E contribuir para a homogenização da mesma é negligenciar grupos ou características inerentes à cidade, é praticar um othering urbano (ao qual estão agregados naturalmente muitos outros tipos de othering).

Torna-se problemática quando estes tácitos territórios sofrem mudanças, principalmente quando sofrem mudanças desfavorecedoras. Tornam-se impotentes, mudos, sem voz para criticar e se fazer ouvir, porque foram esquecidos. Ninguém fala deles.

Aquilo que é esquecido por uma maioria será fácil alvo de injustiça, tendo em conta que ninguém poderá comprovar a justiça ou injustiça feita naquilo que se esqueceu. Aquilo que é esquecido não terá sequer maneira de dizer que foi esquecido. Aquilo que esquecemos não volta a existir para nós.

A cidade muda aos poucos e uma das razões para tal é o compulsivo surgimento de estabelecimentos cool. Na Fuldastraße (neste momento em Neukölln) há agora uma padaria que vende pães fatiados a 5 euros. Ao lado desta mesma padaria existia já uma outra de uma senhora que vende, para além de alguns mantimentos básicos, pão e produtos de pastelaria a preços acessíveis a toda a gente, pechinchas. O peso estético em ambos os estabelecimentos é assustadoramente antagónico. No primeiro, este mesmo peso justifica o cinco euros pelo pão, no segundo os produtos ao preço da uva mijona justificam a ausência de uma “estética”. Claro que as padarias divergem também na abordagem à ética alimentar. No primeiro torna-se subentendido que os cinco euros incluem uma suposta produção biológica e sustentável. No segundo esta não é sequer trazida à conversa.

Talvez seja apenas generalização, mas se tentar imaginar alguém de fora de Berlim a projectar as suas expectativas na cidade, vejo-x mais facilmente escorregando mentalmente para algo parecido com a primeira padaria. E isto é perigoso, apenas pelo simples facto de que a segunda também é Berlim.

Segregação em Berlim é a utopia cultivada por aqueles que aqui vivem e também por aqueles olham a cidade de fora.

Dir-se-ia o mesmo sobre Lisboa, sobre Barcelona, sobre Londres ou Paris.

São as ideias que projectamos ou que deixamos serem projectadas sobre os lugares que também as alteram. Fala-se sempre de algo castiço, de uma qualidade de vida especial, de entretenimento e lazer. Ninguém fala da precariedade de infra-estruturas, do abandono do espaço público estrategicamente destinado à geração de lucro, ninguém fala das pessoas que vivem no limiar da pobreza, dos pombos humanos, da escumalha da sociedade.

São estas ideias que não só reforçam, mas também possibilitam uma alteração física (maligna ou benigna) do espaço. As ideias que cultivamos sobre os lugares têm também poder em si. São também ferramentas. São ferramentas de poder. São ferramentas de poder usadas por outros.

Isto tudo para dizer que esquecer é fácil, mas nem sempre é o mais justo. Muitas vezes é o mais perigoso lubrificante de poder. As cidades mudam também pela maneira como as vemos, pela maneira como pensamos e falamos sobre elas. A gentrificação é um fenómeno que parte também de discursos, de ideias, de afirmações. É preciso abrir os olhos, estar alerta para aquilo que nos rodeia, ver aquilo que queremos e não queremos ver, de maneira a tornar ambos em coisas que apenas existem.