oração fluvial

a morte valoriza o corpo no instante em que levita
anatomia lírica confessada ao tubarão
frondosa entrega nos planos gerais da cavalgada
no momento impreciso da travessia.

noites-relíquias enfileiradas na estante do antiquário
dão a dimensão das oferendas colecionadas.
os herdeiros à espera da última admiração
se lançam na memória movediça.

que divindade se escondia na barba de um assírio?
qual a distância entre dois desconhecidos?
que música é possível na hora do sacrifício?

a seiva vital escorreu do tronco carnudo
formou um açude que, de cheio, sangrou
oração fluvial que se repete por anos.

 

oración fluvial

la muerte valora el cuerpo en el instante en que levita
anatomía lírica confesada al tiburón
frondosa entrega en los planos generales de la cabalgada
en el momento impreciso de la travesía.

noches-reliquias alineadas en el atril del anticuario
dan la dimensión de las ofrendas coleccionadas.
los herederos a la espera de la última admiración
se lanzan en la memoria movediza.

¿qué divinidad se escondía en la barba de un asirio?
¿cuál la distancia entre dos desconocidos?
¿qué música es posible en la hora del sacrificio?

la savia vital escurrió del tronco carnudo
se formó un embalse que, de lleno, sangró
oración fluvial que se repite por años.

 

matadouro

a província diz não aos seus filhos,
é rude e árida, mesmo quando farta e molhada.
entoa liturgia de campo arrasado.

a província tem canto maldito.
não hospeda sementes em seu leito.
exporta desertos para quem mal diz sua sina.

a província é geografia esquecida.
nenhum coração palpita por seu mapa.
nas suas rotas corre sangue de matadouro.

a província deflagra dizimações.
cultiva um cemitério farto.
sisuda e quente, cozinha a própria cria.

 

matadero

la provincia dice no a sus hijos,
es ruda y árida, aún cuando harta y mojada.
entona liturgia de campo devastado.

la provincia tiene canto maldito.
no aloja semillas en su lecho.
exporta desiertos a quien mal dice su destino.

la provincia es geografía olvidada.
no hay corazón que lata por su mapa.
en sus rutas corre sangre de matadero.

la provincia deflagra exterminios.
cultiva un cementerio vasto.
sesuda y caliente, cocina la propia cría.

 

imagem: Gil Guarte — http://cargocollective.com/gilduarte/APRESENTACAO

 

Ellen Maria Vasconcellos. Veio de Santos, vive em São Paulo. Tem formação em Letras na USP, onde finaliza o mestrado em literatura contemporânea. Autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado bilíngue pela Editora Patuá (2015). Tradutora do livro Ângulo de guinada, do autor Ben Lerner, publicado em ePub pela e-galáxia (2015). Trabalha com preparação, revisão e tradução de textos. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra

Escrito por Demetrios Galvão

Demetrios Galvão, Teresina/PI. É poeta, professor e historiador, com mestrado em História do Brasil. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017) e do objeto poético Capsular (2015). Em 2005, em parceria com o DJ Petecão, produziu o cd experimental de poemas Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico. Edita a revista Acrobata, o blog Janelas em Rotação e colabora no site LiteraturaBr.