Por Roberta Simão

2003 foi o ano em que eu saí da casa dos meus pais. Saí para estudar, trabalhar e alçar voos rumo aquilo que o mundo chama de vida adulta. Desde a montagem do primeiro apê para morar sozinha, uma geladeira me acompanha, a Florinda. Entre 2003 e 2018, ela já gelou muito filme fotográfico 135 ISO 200, muito vinho das noites de Sarau e clube do livro, muita cerveja das visitas do meu pai para assistirmos futebol, e dos encontros da turma da faculdade (das Artes Visuais da UFG e da Administração da UNIP), muita comida pré-pronta preparada com todo amor e carinho pela minha mãe, a mais amorosa e dedicada desse planeta. Muita salada fitness de minhas fases focadas e saudáveis, muitas pizzas, cujas fatias eram devoradas frias com coca-cola e Marlboro vermelho, em cafés da manhã nada saudáveis na sacada do prédio do Jardim América em Goiânia, e cheios de risadas e histórias da noitada anterior na Pequi Town. Muita isotretinoina e, ultimamente, muito ácido retinóico, porque a idade chega né, queridxs? Neste meio tempo, também, já me casei – no papel do cartório e no “papel” do recibo de menina de sucesso para sociedade goiana e anapolina – e já me separei. Já uni escovas de dente e já desuni também. E a geladeira, uma fiel companheira, em Goiânia, Brasília, São Paulo etc, sempre sobrevivendo às mudanças, no sentido figurado e literal, firme, forte e otimista como eu.

gasAgora, às 23h:42 do dia 11 de abril de 2018, lua nova, sol infernal em áries e com a nova vizinha do andar de cima pulando corda (graças a última reunião de condomínio, onde conheci a Karen, sei que é corda. Por alguns dias pensei que fosse sexo, pela cadência do barulho e do movimento), chego em casa depois de uma viagem de trabalho, e me deparo com a companheira geladeira t-o-d-a descongelada, mas com o motor funcionando perfeitamente. Cansada, faço algumas pesquisas na internet para tentar achar o problema (parece ser o gás), mas sem sucesso. Porque o sol em Áries fez o IOS decidir sozinho atualizar a nova versão do google e minha internet está lenta para download e, porque, só no Brasil existe a Anatel, que permite que as operadoras não entreguem 100% do pacote de dados contratado pelo consumidor. Enfim.

Então, hoje percebo que sempre fui lúcida e fatalista quanto ao fim de amores e relacionamentos, eles acabam sim. Por diversas razões e inrazões, com motivos e sem motivos, com açúcar e com afeto ou com amargos e desafetos. Hoje amo e sou feliz, dentro dos meus conceitos de saúde, felicidade e respeito, obrigada. Mas num padrão um pouco diferente do tradicional, não vem ao caso. Porém, percebo também, que sempre fui ingênua e sonhadora quanto ao gás da geladeira. Nunca pensei que ele pudesse acabar,  parece que acabou. Uma verdadeira tragédia no que se diz respeito a finais. É possível mesmo isso, gente? Alguém que entenda de geladeira pode dar uma consultoria sobre os possíveis problemas que podem estar acometendo minha geladeira? H1N1 dos eletrodomésticos, síndrome do pânico dos refrigeradores ou menopausa das amigas frescas? Tem conserto? Explico: além do valor afetivo, tem o valor financeiro. Sabe como é né, não estou querendo apelar para o crediário das Casas Bahia ou do Magazine Luiza no momento. Férias pelas frente, viagem marcada, grana extra comprometida e blá, blá, blá! E embora eu saiba que hoje há linhas de Florinda com consumo mais econômico de energia, e mais tecnológicas, essa geladeira é parte da minha história. Sem contar o toque originalmente vintage que ela proporciona à minha cozinha. As moderninhas que me perdoem, mas ser vintage é fundamental.

Trocando em miúdos, depois de 599 palavras, o fato é que tá um CAOS isso aqui, gente. Tudo derretido e molhado. Mais ensopado que o choro dos palmeirenses depois da perda do título para o Corinthians no domingo passado. HELP!!! Salvem Florinda, criaturas deste oráculo midiático e pós-moderno chamado feicybuque. Afinal, de que vale ter alçado voos, ter vivido amores, adquirido experiência, maturidade e um pouco de dinheiro sem ter Florinda ao meu lado? Amores podem ir, mas Florinda não.

Começo a pensar (pirar?) no papel psicanalítico que Florinda pode ter em minha vida. Mas isso é assunto para uma outra hora. Socorroooo!

Escrito por Roberta Simão

Roberta é graduada em Administração de Empresas pela Universidade Paulista, pós-graduada em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas. Atua no mundo corporativo na área de comércio exterior e desenvolvimento de negócios internacionais. Porém, sua paixão desde adolescente por diferentes culturas, literatura, pessoas e viagens, direcionou seu coração para a fotografia. É na arte fotográfica, o lugar onde sua alma e coração, de fato, habitam. Com formação em Fotojornalismo, Fotografia de Rua e pesquisadora de Antropologia Visual, Roberta tem seu trabalho diretamente influenciado na luta pelos direitos humanos, com foco na questão das mulheres, gênero e identidade, com exposições realizadas em Goiás e Distrito Federal. É também colunista do jornal Correio dos Pireneus, onde publica fotos autorais comentadas e colunista na plataforma artístico-literária Libero América. www.robertasimao.com @insideofsoul

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