Hector de Saint-Denys Garneau (Montréal,  escritor e poeta quebequense. Co-fundador da importante revista La Relève (1934). Seu trabalho é marcado por uma visão introspectiva onde a morte tem papel fundamental. Isso se deve ao fato de ter tido uma afecção no coração desde muito jovem, o que fez com que, a partir daí, tenha tido uma vida reclusa e que culminará em sua morte prematura.

Lançou apenas um livro, o melancólico Regards et jeux dans l’espace. Além de um diário íntimo que abarca o período entre 1935-1939 e que foi publicado postumamente.

Não existe, pelo que eu saiba, edições  em português. Mas existe uma edição argentina muito boa da editora Buenos Aires Poetry do seu “único” livro – Miradas y Juegos en el  Espacio (2017) que vem acompanhada de alguns excertos dos diários.

Garneau é muito conhecido no ambiente franco-canadense, não só pela sua fama de eremita e por causa da sua morte prematura, como também por ter trazido para a poesia local uma visão poética única e fresca, no sentido de ser um renovador e um poeta que deu uma cara própria para a poesia de ascendência francesa no Canadá, que até então era  uma mera imitação do que acontecia na França.

Garneau era, além de poeta, um prolífico pintor, tendo produzido uma série de quadros, alguns retratos e muitas paisagens que acabam jogando uma outra luz sobre o trabalho como poeta ao aprofundar alguns dos temas ali propostos.

Apenas como introdução ao seu trabalho, apresento aqui três poemas curtos, dois do seu livro já comentado e outro dos poemas esparsos produzidos por ele.

Voix du vent

La grande voix du vent
Toute une voix confuse au loin
Puis qui grandit en s’approchant,
          devient
Cette voix-ci, cette voix-là
De cet arbre et de cet autre
Et continue et redevient
Une grande voix confuse au loin

A voz do vento

A grande voz do vento
Toda uma voz confusa ao longe
E que cresce se aproximando,
           torna-se
Está voz, aquela voz
Dessa árvore e dessa outra
E continua e volta a tornar-se
Uma grande voz confusa ao longe
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Et cependant dressé en nous

Et cependant dressé en nous
Un homme qu’on ne peut pas abattre
Debout en nous et tournant le dos à la Direction
                   de nos regards
Debout en os et les yeux fixés sur le néant
Dans une effroyable confrontation obstinée et un défi.

E todavia erguido em nós

E todavia erguido em nós
Um homem que não pode ser derrotado
De pé em nós e virando as costas à Direção
                do nosso olhar
De pé em osso e os olhos fixos sobre o nada
Num assustador confronto obstinado e um desafio.
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Rivière de mes yeux

Ô mes yeux ce matin grands comme des rivières
Ô l’onde de mes yeux prêts à tout refléter
Et cette fraîcheur sous mes paupières
Extraordinaire
Tout alentour des images que je vois

Comme un ruisseau rafraîchit l’Île
Et comme l’onde fluente entoure
La baigneuse ensoleillée.

Rio de meus olhos

Meus olhos esta manhã grandes como rios
Onda de meus olhos pronta a tudo refletir
E essa frescura sob minhas pálpebras
Extraordinária
Tudo ao redor das imagens que vejo

Como um córrego refresca a ilha
E como uma onda fluente rodeia
A banhista ensolarada.
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Escrito por Lucas Perito

Lucas Perito - (São Paulo, 1985). É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Escreveu livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Publicou seu primeiro livro de poemas, 38 Movimentos, pela Lumme Editor (2018). Tem poemas publicados em algumas das principais revistas brasileiras, além de algumas revistas de Portugal, Espanha, Galícia e Peru. Tem traduzido Charles Cros, David Diop, James Wright, Amparo Osorio, Abdellatif Laâbi, María Emilia Cornejo, Jacques Prevel, Hector de Saint-Denys Garneau, entre outros.