“Me siento confuso. ¿Qué sucede aquí? No sé cómo hemos podido llegar a esto,
pero todo tiene sus límites.”
El ángel exterminador – Buñuel

 

 

Yo podría haber mirado hacia atrás:
mirado por última vez
la olla de barro adornando
la mesa amarilla,

mirado por última vez
la ventana con el filtro de los sueños
que vos creaste para que yo no
tuviera más pesadillas
o
las tres “monstruitas”
que fueron bruscamente
separadas de mí sin
el permiso de un “Adiós”.

Podría haber mirado hacia atrás
y guardado en la memoria la silla turquesa
donde pasaba mis días
escribiendo “inutilidades”
y el estante con mis libros malditos.

Podría haberme despedido de la
fotografía de mi madre que vigilaba
nuestra cama y la muñeca de paño
(último regalo que me dio antes de morir).

Podría haber mirado hacia atrás
apenas para registrar aquello
que nos roban sin precisar
lanzar un misil
o
utilizar tropas de choque.

Pero yo sólo te podía mirar
y no creer
en la guerra que  tú
plantaste aquí dentro,
no creer
en cuánto podemos
migrar del amor al odio
y en cuán fácil es matar
a alguien sin necesidad de siquiera
levantar un dedo.


 

ANJO EXTERMINADOR

“O desejo é sair daquela casa: mas ninguém consegue sair,
e lá de fora também ninguém consegue entrar.”  
Autobiografia, Buñuel (sobre “O anjo exterminador”)

Eu poderia ter olhado para trás:
olhado pela última vez
a panela de barro enfeitando
a mesa amarela,

olhado pela última vez
a janela com o filtro dos sonhos
que você criou para que eu não
tivesse mais pesadelos
ou
as três monstrinhas
que foram bruscamente
tiradas de mim sem
a permissão de um “Adeus”.

Eu poderia ter olhado para trás
e mirado a cadeira turquesa
onde eu passava meus dias
escrevendo “inutilidades”
e a estante com meus livros malditos.

Eu poderia ter despedido da
fotografia de minha mãe que vigiava
nossa cama e da boneca de pano
(último presente que ela me deu, antes de morrer).

Eu poderia ter olhado para trás
apenas para registrar aquilo
que nos tiram sem precisar
lançar um míssil
ou
utilizar tropas de choque.

Mas eu só conseguia te olhar
e não crer
na guerra que você
plantou aqui dentro,
não crer
no quanto podemos
migrar do amor ao ódio
e no quanto é fácil matar
alguém sem precisar sequer
levantar um dedo.

 

 

Poema “Anjo Exterminador” – Lisa Alves ::: 20 de Junho de 2017 | Inverno ::: escrito na estrada aérea – da série “Canteiro de Pragas”

Fotografia by Arthur Tress

 

 

 

Escrito por Lisa Alves

Lisa Alves (1981) é brasileira, radicada na capital federal do Brasil. É curadora da revista de poesia e arte contemporânea Mallarmargens. Tem textos publicados em diversas revistas, jornais e páginas literárias no Brasil, Portugal e Estados Unidos. Tem poemas publicados em nove antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Participa da Antologia de contos "Novena para Pecar em Paz" (Penalux, 2017). Lançou em 2015 seu primeiro livro de poesia intitulado Arame Farpado (Lug Editora, RJ). site | lisaallves.wixsite.com/lisaalves email | lisaallves@gmail.com