Rebeca Cygnus
reza a lenda que de anteontem
em diante não tardaria
os agoras os instantes seriam
o eu eternizando segundos
.
ternurando doçuras
que eventualmente
azedam
enjoam
abusam
perdem o gosto
.
o gozo
a saliva
o solado
a planta do pé
que dessabem o passo
se desencaixa
.
reza a lenda que de anteontem
em diante os instantes seriam agoras
ontem hoje e amanhã a mesma coisa
casa de cômodos mutáveis
cômodo de coisas mutantes
.
sem moinhos de vento
sem mumunhos de tempo
sem temperança nas escolhas
nem antes
nem depois
infames
.
reza a lenda que de anteontem
os hojes seriam vésperas dos riscos
solúvel riso tomando flores
soluçadas na garganta do peito seco
.infértil aos sonhos
invertebrado aos sabores
aquecendo as delícias dorsais da vida
.
entre dias e noites e esperanças remotas
a lenda rezou e rezou e rezou sem nunca saber milagre.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.