Doente em viagem
Peregrinam sonhos meus
Por uma terra morta.

“Awake”, Kraaust U. Young

A SUBSTÂNCIA

Era um cantil de aço inoxidável para bebida. Aquele cantil cinzelado de finas nervuras lhe havia, sem que percebesse, ensinado a beleza da “substância”.

O PROVIDENTE

A viela do posto fazia pairar um odor de combustível e cebola refogada. Enquanto estancava o ferimento, ele ia vencendo os paralelepípedos e olhares aturdidos. Um bueiro destapado exalava uma olência nauseante.

— Salva ela, salva ela!… — Seus lábios mordiam esse suplício acidentalmente. Salvar quem? Para ele, isso era nebuloso. Pensava naquela mulher de cabelos acobreados, que era naturalmente boa, e naquela de braços muito curtos, que não era nem boa nem má.

Nesse lapso, para além das cebolas perfumadas e do bueiro hediondo, tornava-se visível a bolsa clutch de crochê sobre um banco…

A DISCIPLINA PAULISTANA

Caminhava com um amigo pela Avenida Paulista. Do outro lado, uma bicicleta, coberta de propagandas, vinha aproximando-se. Para sua indiferença, percebeu sobre ela a mulher da noite anterior. Mesmo em pleno dia, seu rosto parecia pautado pela fuligem de um armazém. Naturalmente, na frente de seu amigo ele não a cumprimentou.

— Não era a moça de ontem? — perguntou o amigo.

Ao que ele respondeu sem hesitar, os olhos já fixos em outra bicicleta.

— Não me lembro.

Escrito por André Balbo

André Balbo (San Pablo, 1991) es editor de la revista Lavoura. Autor de los libros de cuentos “Eu queria que este livro tivesse orelhas” (Oito e meio, 2018) y “Estórias autênticas – importunâncias do engenho alheio” (Patuá, 2017). Estudió derecho en la Universidad de San Pablo, en la cual fue columnista y editor en jefe del periódico Arcadas. Es profesor particular de redacción y literatura y trabaja como editor, preparador, revisor y redactor freelancer. E-mail para contacto: balbo008@gmail.com