TanjaMoss

Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem ¦ a vida é volúvel e o tempo é versátil. Nutrindo os milagres fantasmas ganhamos o peso dos náufragos [quando entorpecemos de desumildade as gloriosas manhãs do passado. O prometido nunca será dado se, – ao despertar do dia –, não pudermos escolher o sentimento hoje vivido : se, – ao percursar do caminho –, não pudermos escolher hoje o sentido da trilha. Como um poema inteirado do silêncio das coisas precisamos nos acrescer de êxtase e espanto como vertigem no estômago dos olhos. Porque o que condena o corpo é invisível ao cotidiano [alvo sem norte, contorno ou recorte. É inevitável atravessar a pobreza, o ódio e o abandono incorpóreo da alma. Em vias remotas e poeiras cósmicas tudo é acaso atracado na jugular da sorte.

Nas ruínas do calendário o deslumbre é o destino da queda que suscita os hiatos, onde os instantes se afogam no curso apático das horas [que efêmeras avançam pelo aflito arfar do fôlego. Um vaso sem flor : um chão sem terra : um peito inerte – qualquer que seja a origem da essência que estampa o vazio inflado o caminho será úmido [repleto de pólvoras, punhais e chagas do coração tempestuoso da vida. Neste inverno de agonias há uma enorme ferida ¦ dentro dela vivemos : dentro dela choramos [ora o crime e a loucura, ora o pecado e a glória. Resta ainda tudo, enquanto dentre tantas acontecências multifacetadas ainda restar a intratável gratidão nas chagas [o aprendizado apesar do insípido da alma. Na eucaristia dos sentimentos não há memória sem corpo, tampouco olhar sem sombra. Entre o céu e o asfalto os relógios giram ao redor de um tempo de beleza e selvageria. É o desconhecido que nos habita e a cada amanhecer nos espanca sob o chão que estala. O peso das vísceras, a humilhação dos poros, o júbilo dos corpos – todos os fardos nos alimenta : todos os fados nos justifica. É preciso, talvez, amar o tempo sem indagar os estágios vários das infelicidades. E se acaso nos perguntarem, diremos que sim. Dói sermos responsáveis pela humanização da carne, porém vale muito mais a sabedoria do espírito [abstrata o adorno verberado da dor.

Como um rio desflorando o chão viver é guarnecido das coisas miúdas intocadas pelo medo como a luz se recolhendo nas pupilas desatentas. Perante a cegueira grotesca das soberbas o tempo emudece as geografias das bênçãos [vamos sabendo do caminho por aquilo que perdemos : vamos sabendo caminho por aquilo que doemos. Pedaços que se amputam, – impiedosamente –, desalinhando a paz intrínseca com o mistério de serem poucos e valerem somente quando os perdemos. Aqui rege a morte [seu lugar esquivo, seu acontecer disperso. Imóveis nessa súbita lentidão o destino nos vai sendo escasso, quando quase nunca enxergamos seu rosto neste acontecer imediato. Tenho dosado meus planos como quem dosa as gotas de remédio sem desespero nem desgosto [adestrei-me no vento sem deixar de ser tempestade. Entre tantos entretantos “estou aprendendo com os rios. A me deixar levar pela correnteza das águas sem temer a queda livre das cascatas”. Pouco a pouco despeço velhos anos como quem emprega novas vidas num mesmo cotidiano.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.