quem dera os caminhões não voltassem a rodar
e o asfalto terminasse de esfarelar
e a água penetrasse de novo na terra
e o ar carregasse apenas vapor d’água e promessas
e as estradas voltassem a ser paisagens
e as araras usassem os volantes de poleiro
e as esposas dos caminhoneiros desfrutassem até cansar de sua presença
e comer e beber e vestir não fossem uma única e mesma coisa
e os vizinhos passassem a ser gente muito importante
e as caminhadas em companhia se enchessem de histórias e silêncios densos
e as caminhadas solitárias se enchessem de devaneios e respeito amplo
e o petróleo voltasse a dormir sob o solo
e os relógios nas paredes rodassem inúteis como piões
e os calendários nos iluminassem queimando nas fogueiras
quem dera os caminhões não voltassem a rodar
e o ritmo das coisas fosse se desacelerando
e a interrupção fosse vista como possibilidade
de seguir mais tranquilos por outro caminho
cometas fora da órbita rumo à próxima estrela
quem dera os caminhões não voltassem a rodar

Escrito por Tomaz Amorim Izabel

Tomaz Amorim Izabel, 29, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: tomazizabel.blogspot.com. É colunista de crítica cultural na Revista Fórum. Nascido e criado em Poá/SP, nas margens do sonho-monstro Bandeirante, reivindica uma ascendência mineira a se reinventada onde houver ainda mundo.