Inspirada pelos saltos iniciáticos da filha de um amigo, comprei uma corda para minha sobrinha — uma lembrança de Portugal, misturada com a memória da menina que vive em Luanda, e de outra, ainda em mim, a entregar a vaca amarela que cagou na panela, no mais autêntico “brasileiro”, além do risco de comer tudo ao romper o silêncio.

__ Tenho uma sobrinha um ano mais nova que você.

__ Ela também fala em brasileiro?

Ester perguntava, na mesma língua, um outro acento, ou balanço no quintal em chamas, porque tempo de queimadas na Ericeira. Vieram os bombeiros e tudo.

__ Eu sou muito nova para morrer!

__ Não é hora, Ester.

Na mesma loja de brinquedos tradicionais, onde se vendiam peões, tambores, violões e as cordas, encontrei uma pequena máquina de costura perto de balanças de mercearia, todas de plástico, com detalhes em alumínio, porque as de plástico não morrem, porque de brinquedo é tudo o que é plástico, não o plástico como ponta de iceberg na capa da National Geographic. O plástico que perdurará tantas gerações, se o outro plástico não nos sufocar. “Não coloque a cabeça dentro da sacola, menina! Pode sufocar.”

__ São para presente?

Pergunta o atendente na loja.

__ É tudo lembrancinha. Deixa que depois arranjo os pacotes.

Na mala tudo embola e pode quebrar. Na mala tudo é frágil. Os livros pesam e amassa o que é linho.

Já em casa, ao preparar o embrulho, tive de dar o braço a torcer: a máquina era recordação minha das avós. Não era um presente para minha sobrinha, que não conheceu suas bisavós.

(Conheci duas de minhas bisavós. Seria bom ter alguma notícia das outras duas. Sem tê-las, as invento, e porque as invento são tão ou mais verdadeiras. Essa ficção carrega o mais antigo e por isso mesmo algo de novo. Fui eu e não minha mãe quem interrompeu o aprendizado da costura. Não o de juntar retalhos em unidade que cobre a noite. Fui eu e não minha mãe quem interrompeu a linhagem de mulheres em trabalho de parto.)

Guardei em miniatura, para minha sobrinha, junto das linhas de casa, na prateleira que é útero e mundo, a lembrança das minhas avós naquela pequena máquina de costura, para então repassá-la no tempo de remates à Gabi. Um presente para o futuro, todo passado.

É cedo demais para esperar que, com cinco anos, ela abra mão dos manejos da infância. Da destruição como criação. Incorporação aos pedaços e cabelos de bonecas cortados de forças e formas e fios alheios e por isso mesmo tão nossos.

Seria cedo demais para dar uma corda de presente? Quando, afinal, já há coordenação motora para saber o momento do salto? Uma corda seria desdenhada por uma menina que lida com celulares e adora ganhar vestidos?

A expressão “as crianças de hoje em dia”, em sentido pejorativo, contém o que caducou em nós e nem nos demos conta, a julgar o que não podemos prever, porque é futuro e nos escapa toda posse. Nas crianças que fomos e que só foram porque agora podemos recordá-las vivas estão também as que olhamos hoje em dia como continuidade por meio de rupturas.

__ Gabi, não fique preocupada em acertar logo. É difícil pular corda. Depois fica fácil como se nunca houvera existido a maturação do que é corpo como aprendizado lento. Talvez demore para você brincar com ela assim ó. Não sei. E meus joelhos reclamam. É lento também o desaprendizado. É como andar de bicicleta, não se desaprende, mas bate de outra maneira o impacto da força implicada em cada pedalada.

Você pensa que eu tenho todas as respostas. Com você reaprendo todas as minhas próprias perguntas. (Quando será que o mais fácil se torna o mais difícil e vice-versa? É uma delas. Doeu outro dia tentar uma cambalhota, nas costas, no litoral nunca atingido porque menina do interior.)

A nova corda como lembrança e as tentativas de pulo de todos os envolvidos.

O vovô pulou a corda.

A vovó também.

A tia pulou a corda.

A mãe pulou.

A menina se saiu muito bem.

Todos pisamos ou barramos a passagem da corda em algum momento, seguido de reinício da contagem e do estalo que faz a corda quando raspa o chão.

__ Tia Lulu, esta corda são as minhas tranças. Olha!

__ Tia Lulu, vamos fazer um caracol com a corda?

__ Agora a letra U.

__ Uma corda não é uma corda, né, Gabi?

__ É uma estrela, tia! Uma cobra! Pula a onda! É uma estrada comprida.

__ Alô, alô, Gabi.

Ela pega a outra ponta da corda convertida em linha telefônica.

__ Alô, tia Lulu.

__ Está tudo bem por aí?

__ Sim, quando você volta da viagem?

__ Logo logo. Levo uma corda para você.

Estico a corda. Ela estica a corda. Sustentamos a tensão anticabo de guerra.

__ Estou atravessando a linha do Equador. Encurto a corda.

__ Agora eu vou te prender. Amarrar suas pernas e levar para o meu poço secreto.

Ela espirala a corda em mim. Estou refém. Estou bandida e banida dos meus 37 anos.

__ Mas aqui tem um poço?

__ Sim.

Faz sinal para que a siga. Ela aponta o vão embaixo da churrasqueira. Onde a gata, entre brinquedos, se esconde, deixando o rabo para fora.

__ Olha, tia, a corda também é minha calda.

__ Tenho medo, Gabi, é tão fundo o poço.

__ Se cair, eu te puxo do fundo com a corda, tia.