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Feitos da matéria de um peito desordenado e antigo. Onde o único desejo do músculo é cruzar o caminho de um pulsar vivo. Somos o útero clandestino de um coração sem sentido [sem tino nem tímpano, sem tipo nem tipografia. Infértil da inocência dos sentimentos castos – grávidos dos milagres que cintilam a vida. Entre barulhos e ruídos e vozes irreconhecíveis. Há um silêncio eterno a margem das palavras. Há um silêncio eterno a margem das pausas. Há um silêncio cavo, áspero embora úmido. No meio do parágrafo, atravessando as ruas, saltando as vírgulas, atropelando as aspas, menosprezando os parênteses.
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Um silêncio exausto, desinquieto e disperso sem qualquer disfarce. Qualquer curva de qualquer destino de qualquer certeza imprecisa. Sem qualquer ciência de origem oriunda de qualquer vazio. Um silêncio suspenso, despido e permeável como a melancolia dos domingos invariavelmente alaranjados. Oscilados entre as sedes de manhãs solares e as saudades dos entardeceres poéticos – ocupando o ar de caminhos e de espaços, onde tontos os ecos atravessam os desertos das línguas sem idiomas. Há um silêncio mordendo os lábios : contorcendo a alma. Há um silêncio quase pávido nas lágrimas sonegadas. Entre o cheiro da ferida e o amadurecer da casca : a ferrugem do osso e o apodrentar da carne. Há um silêncio onde o tempo inexiste e o mistério avassala – seco como a fome do estômago sem afeto [sem memórias nem delírios, sem devaneios nem melancolias.
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Nunca vi seu rosto – vive mergulhado entre minhas coxas cheio de medo e de espanto. Mas, ironicamente, o medo de não ser espanto : o espanto de ser sangue quente para abortar o caos e parir o que cala – amparando as contrações do peito em trabalho de parto. Derramando um sopro vida nas vozes melindrosamentes moribundas. Há silêncios de todas as espécies e especialidades, de todas as especiarias e especificidades. Um silêncio pesado. Um silêncio com coisas dentro. Um silêncio com tudo dentro onde o amor nunca dói, mas a dor da dor permanece. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Ela corre na brisa da carne sem nome, deixando o silêncio ainda doído e de vozes infinitamente estrondosas. No entanto, que só a língua magoe com jeito.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.