EM DEFESA DE UM PONTO VIRGULINO
    
(André Nogueira)

……….> “Todos os sinais de pontuação são sinais de trânsito”;

……….W. Adorno.

……….> “Ele continuava a acentuar idéia e pára.
……….Era sua revolta contra o sistema”;

……….Ana Júlia Carvalheiro.

Na floresta de relógios
ouço cliques, tique-taques,
vibrações de celulares,
das filas nas lojas
às mesas dos lares,
nos templos, nos parques
ouço pêndulos tocarem,
corações uniformes,
pensamentos regulares…
     
Vez em quando a pulga ilógica
se achega atrás da orelha
e pelo vão da ventoinha
me destampa a estreiteza.
O pentelho diabinho,
já faz tempo que o conheço…
Como sempre ele retorna
a invadir minha cabeça,
penso ser este o gabinete
armazém de seus espetos.
Isso não com maus intentos,
nem o caos se instalou
após que em meu interior
rodou a tantas piruetas.
Nos meus próprios parafusos
recebi este cronópio
de incronometrável fuso,
porque seu rodamoinho
foi que o eixo me roubou
e me tirou fora da linha
da montagem de robôs.
    
Ei-lo. Como um raio
ele entrou, e de soslaio
me olhou, mas desta vez
com um estranho nervosismo.
Em bom e claro português
ele me disse: “Caríssimo!
Um prazer foi conhecê-lo,
mas agora já me vou,
que tem polícia atrás de mim”.
Ainda antes de zarpar,
obstruiu o cata-vento
que arejava minhas ventas
e surgindo atrás da pá
me encarou por um momento:
“Nossa história chega ao fim!”
     
O doutor relojoeiro
adverte, foi um grilo
que atacou o mecanismo.
E o mal talvez complique
caso a hora eu não acerte
com o horário de Brasília,
e apontando minhas setas
para números felizes.
Quer também que eu me medique
com porções de conformismo…
Mas a vida só de cliques,
sem o desvario dos ventos
que invadia o domicílio
e me inspirava os cata-ventos,
para mim é o cataclismo.
     
Desde aí a sociedade
me persegue com relógios,
sinaleiros e lanternas
que cintilam nas guaritas
apontando o fim da linha.
E em todas as lojas
as câmeras do circuíto interno
sentem fome, na verdade,
dos internos meus circuítos
e das minhas ventoinhas.
     
Para mim é pouco crível
este crivo da ciência,
e para a desobediência
tenho forte inclinação.
A coisa mais irresistível:
um convite à infração.
Sinto, nos recintos
da poesia, a presença
deste ser que me auxilia:
meu querido diabrete!
Posso ver a sua orelha
despontar em cada idéia
que eu coloque no papel.
Mas a história se repete:
num piscar de luz vermelha,
a filistéia operação
policial e bacharel.
E então rápido ele some
pelos buraquinhos dos nomes
sem deixar nenhum sinal.
E, com o tédio no redondo
dos relógios se impondo,
pavimenta o corretor gramatical.
     
Deixo aqui a minha isca:
um palavrão assim planejo,
certa crase clandestina,
quase um ponto virgulino
em perigoso dialeto.
Vai saber ele mordisca?
Quando súbito eu vejo
ratoeiras no meu texto,
a decepar do meu diabo
rabo, orelhas e espeto,
os cabrestos e aparelhos
de descer a lei das bestas
sobre o couro dos poetas
e torcer sangue vermelho
quando o verso me canetam.
     
Seus pauzinhos movimentem
nos refis das lapiseiras,
opressores aparatos
de um corpo docente
já há tempos putrefato
(e nem assim fede nem cheira…).

Gira o mundo
com seus vinte e quatro fusos,
porém gírias e gerúndios
neste luso-brasileiro,
isso depende se em desuso
já caíram as peixeiras.
Esse assunto faz ferver
o sangue meu de cangaceiro,
e se tiver de defender
a este acento em minha idéia,
cabra macho eu hei de ser
a ponto de me chamar Andréia.*
    
Para sempre eu possa ouvi-lo,
este recorrente grilo,
reco-reco do universo paralelo.
E venha a mim o diabrete
em espirais de apostilas
e verbetes de aurélio.
    
Podem caçar minha carteira
e à vontade me multar,
se o fiscal do sinaleiro
para mim gritando “Para!”
minha placa autografada
tiver tempo de anotar.
E seja sempre meu traseiro
em posição fotografado
pelo ortográfico radar.
    
Julho – agosto 2016

* Post scriptum:

– Notas para um manifesto da contra-reforma ortográfica –

Se não aceito a reforma trabalhista, se não aceito a reforma da previdência, por que aceitaria eu – a reforma ortográfica? Se não reconheço o Congresso Nacional, por que reconheceria a Academia Brasileira de Letras? E sua suposta legitimidade para alterar algo muito, muito sagrado que a Constituição.

Há quem fale num ortográfico “acordo” – com quem? Ordens de cima. Assim governam os poderosos de gravata, na base da canetada. Assim, como faz atualmente o Presidente com obstrução peniana: pega, com suas mãozinhas atrofiadas, na sua canetinha – sua triste, murcha e amargurada canetinha –, e assina. Então saem canhões, tanques, bazucas, come solto o cacetete. Vermes que legislam, proíbem, oprimem por raiva da própria impotência. Assinar uma reforma da língua com a mesma canetinha obstruída que escreveu Anônima Intimidade (Obs.: Na verdade, a reforma ortográfica da língua portuguesa foi assinada em 1990 e tornada obrigatória sob o governo Dilma em janeiro de 2016). Nós, os fortes, que conhecemos a Poesia, a Filosofia, vamos deixar que assim, com uma canetada dessa, o Estado interfira no supremo exercício da nossa liberdade – em nosso ato de escrever?

Alguém dirá: “Ora, escreva como quiser!”. Ótimo, agora acreditam em “livre-negociação”. Falo por questão de princípio: não cabe a uma cúpula engravatada revogar direitos de trabalhadores. Uma reforma da língua? Igualmente, só com intensa participação popular. Daí que, num país tão repressivo, não basta ao governo se meter no que é de sua alçada; ele precisa decretar, revogar, obrigar, proibir. Uma língua, que nos forçam a engolir contra a vontade, é um assédio! E não me refiro a mudanças pontuais de acentuação, mas à própria natureza da língua escrita que, ao assim ser governada, se torna produto de um ato autoritário.

O direito de sabermos nossa língua, o Estado tira de nós uma vez, porque não oferece educação, e mais outra porque, se algo nos foi ensinado, o mesmo sistema de ensino o anula na década seguinte. Em cada escola, em cada universidade, já se posicionou o aparato da repressão: professores viram fiscais de si mesmos, de seus colegas e alunos; editores e revisores acatam prontamente às ordens e a elas dobram seus autores; e nos programas de computador o policiamento é automático, com a tecnologia do radar. O esforço de adaptação vale a pena, se tiver retorno no mercado. Que outra opção, após a campanha de desalfabetização forçada? Cada um que compre uma edição atualizada (com a etiquetinha “Novo Acordo Ortográfico!”) do Dicionário Houaiss. Senhor Antônio Houaiss, que estava lá, na cúpula reunida em Lisboa, ajudando a definir os itens da “reforma”. Baixem uma foto do Senhor Houaiss e confiram, se não é um Vampirão da língua portuguesa (e digo que nesse eu também não votei).

Ah, o Poder Legislativo da língua! Pátria educadora que venera a palmatória! Velhos mestres de gramática e bons costumes, homens infelizes, que não sabem escrever poesia e, por isso, usam a caneta, como os políticos de gravata, para legislar. E a régua para bater. A convite dos governos lusófonos, esses eminentes senhores baniram alguns acentos de aguda importância na língua portuguesa e, logo também, na idéia de cada um de nós. Motivos puramente econômicos. Os governos gastavam dinheiro com a padronização de correspondências diplomáticas em trânsito internacional. Para facilitar a transação, simplificaram os elementos da ortografia, padronizaram a língua em si! Simples assim. Por tabela, provocaram uma explosão de vendas, um “boom” no mercado de livros e apostilas. Novas mercadorias, com novos selinhos, sempre uma nova sensação da vez. Fomos longe demais: para que a moeda gire nas máquinas registradoras, impusemos à língua um prazo de validade artificial, uma “atualização” ortográfica com o único objetivo de aquecer a economia!

Quando em 2012 publiquei meu primeiro poema sobre o assunto, dei a ele o nome A Conspiração da Lâmpada. Diziam os versos finais: “A era da obsolescência programada/ está com os dias contados:/ para a óbvia idéia de um sol nascente/ todas as lâmpadas se apagam”. Eis que a máquina registradora do mundo se abriu para mim. Lá dentro vejo todos os fios de cobre programados para estourar precocemente. Não contentes com o feito de iluminar a noite americana, os fabricantes de lâmpadas combinaram entre si, para o bem de seu negócio, forjar um limite para a vida útil do mecanismo incandescente. Que outra opção, senão se submeter a comprar uma nova? Passou um século, os jovens já não sabem o que é um lampião e os velhos, por força do hábito, até aprenderam a achar bonita a redondeza modesta e amarelada da lâmpada. Até que, por decreto do governo e por n razões científicas, a própria lâmpada incandescente foi substituída. Costuma-se dizer que se tornou “obsoleta”. Impreciso. Ela foi, na verdade, proibida, retirada do mercado; aos fabricantes foi oferecida uma oportunidade de lucrar mais com o led ou o neon. Mas a obsolescência não pode ser algo programado, tampouco forçado; torna-se obsoleto aquilo que deixa de ser importante para as pessoas e, por isso, cai em desuso, e não porque foi sabotado ou apreendido pela fiscalização.  

Proibir uma lâmpada é fácil! Mas a língua é indomável, viva; ela vive na feira, brota do povo. É verdade, quem escreve se sujeita às leis. E todos querem escrever para ser alguém. O governo usa do sistema escolar, como seu braço autoritário, para naturalizar a “nova ortografia”, e os jovens de hoje pensam que sempre foi assim. Mas se esquecem que, antes do neon, veio o lampião. E, antes do lampião e de qualquer forma de se trazer à luz uma idéia através da linguagem, vem a chama do fogo, a fagulha elétrica da criação, que faz indomáveis a Poesia e a Filosofia. Em cada coração há um desse fio de cobre, que produz calor, vida, em todos os povos e línguas. E há um fio incandescente, programado para estourar, em cada idéia que se acende no cérebro, ao ser podada em seu nascimento pelo corretor automático.

Para fisgar vestibulandos inseguros, candidatos a vagas em concursos públicos (uma canetada pode custar o emprego, o futuro), colocaram à venda a língua portuguesa, com selo de mercadoria promocional. Realmente, tudo o que era sólido se desmancha no ar. Mas os fins seguem os mesmos na modernidade líqüida: a lei pétrea do lucro, pelo que se leva tudo à liqüidação, inclusive os direitos trabalhista e previdenciário. Cortar, castrar o meu verbo, por causa de suas cifras e números? De investidores, empresários e ministros que baixarão à tumba sem nunca ter lido poesia. Deixem o povo (e quem realmente o representa, o poeta) mostrar, para os almofadinhas de terno, quem é que manda na língua! E todo aquele que tiver idéia forte, desobedeça, lute com essa idéia, não retire dela a sua chispa, a fagulha luminosa da revolta. O acento da idéia, um pelinho de sinal gráfico, torna-se a última barricada, se declarada fora-da-lei pelos meus inimigos. Contra a reforma, lutarei com os pontos virgulinos, que tanto eles querem arrancar, como à cabeça do cangaceiro. Eles escrevem com a caneta; eu – com a peixeira. Camarada escritor, e então? Vai renunciar à trema – porque o governo mandou? Escreverá realmente na mesma língua que o Temer!?

Eu, poeta da contra-reforma ortográfica, desobedecerei como um russo. Ou, quem sabe, uma russa: Marina Ivánovna Tsvetáieva. Em 1918 a língua russa passou por uma reforma, que derrubou de seu alfabeto a letra iat (Ѣ), letra a qual Tsvetáieva (talvez não reconhecendo a legitimidade do governo) se negou, terminantemente e até o fim, a suprimir de sua escrita e, ademais, de sua própria assinatura (visto que a grafia original de seu sobrenome é “ЦвѢтаева”). Descobri isso por acaso, pesquisando em fac-símiles antigos… Parece natural que, cem anos depois, em todas as edições de sua obra (inclusive a edição que eu mesmo uso como seu tradutor) não se ache um iat? Pergunto: e se eu me chamasse Andréia!?

Aproveito a ocasião para solicitar que se respeite este protesto ortográfico, em toda a extensão da minha atividade escrita, literária ou acadêmica. Editores de hoje e os futuros: não censurem da minha poesia quaisquer tipos de sinais, agudos, graves, tremas, crases, quaisquer pontos, vírgulas, acentos… e estrelas, mesmo que um dia elas caiam – no vestibular.  

 

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com